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Mounir Maasri

Texto Maristela Velloso

“Gosto muito do que faço e com a idade faço cada vez melhor”, conclui o ator libanês Mounir Maasri, de 75 anos, a cara nova que o grande público vai ter o prazer de conhecer encarnando o patriarca de uma família de imigrantes libaneses retratada na minissérie Dois Irmãos, ainda sem data de estreia, na TV Globo. A história é baseada no romance homônimo de Milton Hatoum, prêmio Jabuti de 2001, e além de interpretar o avô dos gêmeos protagonistas na primeira fase da trama, Mounir foi instrutor de dramaturgia dos núcleos de personagens árabes e permaneceu no Rio por nove meses acompanhando as gravações. “Ele nos passou valores, dignidade, uma língua nova, sabores novos, significados e refinamento. Foi fundamental em nosso trabalho, como líder, como grande patriarca dessa família. Minha Zana é filha dele.”, declara emocionada a atriz Eliane Giardini, que interpreta sua filha na terceira fase da minissérie.

A dupla responsabilidade de Mounir neste projeto foi assumida com a mestria própria dos profissionais experientes. Seu currículo tem quase uma dezena de páginas que incluem trabalhos no Líbano e em vários países árabes, na França, nos Estados Unidos e no Brasil, como ator, diretor, escritor, produtor de cinema e instrutor de teatro e TV. Impossível destacar suas atuações mais relevantes. São muitas e grande parte desconhecidas do público brasileiro, porque “ele é um dos maiores atores e diretores do Líbano”, esclarece o produtor de elenco Luiz Antônio Rocha, que esperava há anos uma boa oportunidade de convidá-lo para um trabalho na TV, depois de vê-lo casualmente num trecho de um filme.

“Durante boa parte da minha vida o Brasil era um nome que eu lia nos livros de Geografia”, admite Mounir, até que  conheceu a brasileira Rose Marie numa viagem à Líbia, em 1974. Destinos traçados, estavam hospedados no mesmo hotel; ele filmando um longa, ela participando da instalação da embaixada brasileira em Trípoli, como funcionária do Ministério das Relações Exteriores. Casaram-se oito anos depois e têm três filhas. Desde então, para acompanhar a esposa, Mounir já morou em Atenas, Nova York e Roma, mas a família fixou-se definitivamente no Brasil em 2012 e de lá pra cá ele passou a figurar nos créditos de algumas produções brasileiras, entre elas A Última Estação, primeira produção líbano-brasileira, que também conta a trajetória de imigrantes no Brasil, O Segredo da Serpente, um longa de aventura para adolescentes que se passa na Amazônia e Campus Santo, que narra a história de um grupo de estudantes da UNB. “Mas não posso me desligar do Líbano”, ele diz, e atualmente trabalha com ex-alunos no roteiro de uma série, para a TV libanesa gravar no ano que vem.

A carreira hoje é intensa, mas tudo começou ao acaso. Aos 11 anos Mounir gostava de praticar esportes. Treinou e competiu em campeonatos esportivos em vários países do Oriente. Fez judô, boxe, tênis, basquete, corrida, salto a distância, salto em altura e vôlei, modalidade na qual disputou, aos 16 anos, um campeonato mundial, na Turquia, a frente da seleção do Líbano. Até que se encantou pelas artes cênicas e, ainda adolescente, resolveu estudar arte dramática no Senior Dramatic Workshop, em Nova York, onde foi aluno de Lee Strasberg, um dos mais famosos professores do Actors Studio. De volta ao Líbano, fundou o Institute For the Performing Arts, onde permaneceu por 12 anos, como professor e responsável pedagógico, inovando ao receber pessoas com deficiência em classes inclusivas. Essa bem sucedida experiência no Líbano inspira um de seus projetos atuais, em Brasília, para profissionalização de adolescentes com deficiência, para o mercado audiovisual do Distrito Federal.

Estamos falando de um homem de 75 anos, com disposição física e intelectual impressionantes, e que nem por isso deixa de estar antenado com a situação do envelhecimento da população brasileira, e muito disposto a contribuir com essa reflexão. Como um homem do velho mundo, ele não poderia deixar de mencionar a degradação do papel social do idoso na contemporaneidade. “Foi essa sociedade gerada pela revolução industrial que inverteu os valores, ao impor imperativos de produção e agilidade incompatíveis com o envelhecimento. O ancião perdeu seu lugar na sociedade moderna”, lamenta Mounir. Uma de suas críticas mais contundentes diz respeito à sutil condição imposta ao idoso pelo marketing industrial, que criou o símbolo de acessibilidade utilizado no Brasil: uma figura de uma pessoa encurvada, apoiada em uma bengala, caminhando com as mãos nas costas e em posição de quem sente dor. “Como se o idoso devesse ter prioridade por ser frágil, doente e incapaz. Não me identifico jamais com este símbolo”, diz Mounir. “Antes de tudo, os idosos merecem respeito pelo muito que já contribuíram com a sociedade. Esse logotipo nasceu de uma percepção preconceituosa”, conclui.

Toda iniciativa séria que traga à tona as questões do universo da longevidade vão, em sua opinião, ajudar a redefinir o papel do idoso como ator social e restabelecer suas vocações. “É preciso identificar os estereótipos que originam a percepção de que o idoso recebe um atestado oficial de envelhecimento, principalmente após a aposentadoria. Esse rito de passagem que o joga no fosso negro da inutilidade, da marginalização e do desrespeito”.

Beneficiado pelos anos em que se dedicou e se destacou nos esportes, Mounir se dá ao luxo de afirmar que gosta e curte essa atual fase da vida. Porque se sente disposto e capaz de levar adiante, sem sacrifícios, sua principal função de ator e professor de artes dramáticas. Dono de uma vida tranquila, produtiva e satisfatória, como faz questão de afirmar, ele deixa para reflexão dos leitores do MP um trecho da Carta ao Idoso, de João Paulo II: “Os anciãos ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experimentados e amadurecidos. Eles são guardiões da memória coletiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. Excluí-los é como rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, em nome de uma modernidade sem memória. Os anciãos, graças à sua experiência amadurecida, são capazes de propor aos jovens conselhos e ensinamentos preciosos”.

Por | 2018-10-30T10:51:27+00:00 16/09/2015|0 Comentários

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