A longevidade e o trabalho aos 100 anos

Silvia Costa

Silvia Costa é colaboradora do Mundo Prateado e integrante do grupo de pesquisadores do CNPq “Tecnologias, Culturas e Práticas Interativas e Inovação em Saúde”

Como o mundo do trabalho vai mudar quando muitos de nós estivermos com 100 anos

Livre tradução de How Work Will Change When Most of Us Live to 100, publicado em Harvard Business Review

Autores: Lynda Gratton e Andrew Scott*

Nos Estados Unidos há hoje 72 mil centenários. No mundo, há cerca de 450 mil. Se essa tendência continuar, em 2050, só nos Estados Unidos, a população centenária será de mais de um milhão. Segundo o demógrafo James Vaupel, e sua equipe de pesquisadores, 50% dos bebês nascidos em 2007 têm uma expectativa de vida de 104 anos ou mais. O mesmo ocorre em outros países, como Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Canadá – enquanto no Japão, pessoas nascidas em 2007 podem esperar viver até os 107 anos.

Certamente a situação traz preocupações relativas a finanças públicas associadas aos desafios interpostos à Saúde e à Previdência Social. São desafios reais, que a sociedade precisa enfrentar com urgência. Também é importante estar atento ao cenário produzido por uma grande quantidade de pessoas chegando aos 100 anos. Seria um erro associar a longevidade a questões apenas da velhice, por que vidas longevas geram implicações para todo o curso de vida e não somente para o fim de vida.

Entendemos que se muitas pessoas estão vivendo mais tempo, com mais saúde, o fato resultará em inevitável redesenho do trabalho e da vida. Quando as pessoas vivem mais tempo, o gráfico de seu curso de vida muda, por que são também mais jovens por mais tempo. Parece verdadeiro o clichê que afirma que as pessoas de 70 anos, parecem 60 anos, e de 40 anos, parecem 30, e assim sucessivamente. Assim, se envelhecemos mais lentamente, por um período maior, então, de alguma forma, permanecemos jovens por mais tempo.

Porém, as transformações vão mais além. Por exemplo, agora chega mais tarde a idade em que as pessoas assumem compromissos como comprar casa, casar-se, ter filhos ou começar uma carreira. Em 1962, os norte-americanos se casavam aos 21 anos. Em 2014, o marco mudou para 29 anos.

Entre os muitos fatores ligados a essas mudanças, um deles é a consciência progressiva dos jovens de que vão viver mais tempo. As opções se tornam mais valiosas quando mais duradouras. Pois quanto mais tempo se vive, mais valor se encontra na duração e o compromisso precoce fica menos atrativo. Como resultado, os compromissos envolvidos como marcos da vida adulta estão sendo adiados, criando novos padrões de comportamento e uma etapa diferente para as pessoas de 20 anos.

A longevidade adia a idade da aposentadoria

A longevidade adia a idade da aposentadoria

A longevidade também adia a idade da aposentadoria, não apenas por razões financeiras. A menos que você tenha economizado para a aposentadoria, de acordo com nossos cálculos, se você tem em torno de 40 anos, irá trabalhar até os 70. Se você está no começo dos 20, há grande chance de que terá que trabalhar até o final dos 70 ou início dos 80 anos. Ainda que uma pessoa com estrutura econômica para se aposentar aos 65 anos, os 30 anos de potencial inatividade contribuirão para perdas cognitivas e emocionais características dessa etapa da vida. Muitas pessoas hão de preferir não fazer isso.

Ao mesmo tempo, isso não significa que a extensão do tempo de trabalho seja atraente. Essa ampliação do trabalho em horário integral pode assegurar os recursos financeiros necessários para uma vida com duração de 100 anos, mas trabalhar longamente pode prejudicar recursos intangíveis como habilidades produtivas, vitalidade, felicidade e amizade.

O mesmo vale para a educação. É impossível que um único período de educação, na infância e na adolescência, faça frente a uma carreira de 60 anos. Se você levar em consideração as taxas previstas para mudanças tecnológicas, suas habilidades podem se tornar redundantes ou sua indústria obsoleta. O que significa que todas as pessoas, em algum momento de sua vida, terão que reinvestir em suas habilidades.

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Assim, os tradicionais três estágios de vida se transformarão em múltiplas etapas de dois, três ou mais carreiras diferentes. Cada estágio pode ser potencialmente diferente. Em um deles, o foco poderia estar a construção de sucesso financeiro e realizações pessoais. Em outro, estaria a criação de um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Outro residiria na exploração e compreensão de escolhas mais plenas ou em tornar-se um realizador independente ou um empreendedor social. Tais estágios atravessariam setores, levariam pessoas para outras cidades e proporcionariam fundamentos para a construção de grande variedade de habilidades.

As transições entre estágios seriam marcadas por períodos sabáticos, em que as pessoas encontram tempo para descansar e recarregar sua saúde, reinvestir em relacionamentos ou fortalecer habilidades. Algumas vezes as pausas e as transições serão autodeterminadas e outras vezes serão forçadas por circunstâncias como a obsolescência de empresas ou indústrias.

Uma vida e múltiplos estágios

Uma vida e múltiplos estágios

Uma vida de múltiplos estágios terá mudanças profundas não apenas na forma de gerenciar carreiras, mas também na abordagem da vida. Uma habilidade cada vez mais importante será a forma como se lida com mudanças e até como as recebe. Uma vida de três estágios tem poucas transições, enquanto a múltipla tem muitas. Por essa razão é preciso ser autoconsciente, investir no aumento das redes de amigos e estar aberto a novas ideias, de modo a ainda atrair habilidades mais cruciais.

Essas vidas criarão uma grande variedade no decorrer de muitas gerações, simplesmente por que há inúmeras maneiras de organizar a sequencia de estágios. E mais estágios significam mais possibilidades de sequencias.

Diante dessa variedade, a associação entre idade e estágio acabará. Em uma vida de três estágios, as pessoas deixam a universidade ao mesmo tempo e na mesma idade, começando carreiras e famílias simultaneamente, lidam com gestão em épocas próximas e se aposentam com poucos anos de diferença. Em uma vida de múltiplos estágios, você faz graduação aos 20, 40 ou 60 anos; ser um gerente aos 30, 50 ou 70 anos; se tornar um empreendedor independente em qualquer idade.

Quando a idade não for mais um determinante do estágio, os gerentes e líderes de setores de recursos humanos vão mudar. Mais fundamentalmente, pessoas de gerações diferentes vão interagir entre elas. E conforme compartilharem atividades, vão se compreender melhor. Isso levanta a possibilidade de, entre muitas outras coisas, as pessoas idosas “envelhecerem jovens”, simplesmente devido à companhia de que desfrutam.

As estruturas atuais da vida em sociedade, trajetórias de carreiras, escolhas educacionais e normas sociais não estão alinhadas à realidade emergente quanto à expectativa de vida. O triplo estágio de vida que começa com a educação, seguida de trabalho contínuo e se completa com a aposentadoria, pode ter servido para nossos pais e talvez para avós, mas não tem relevância nos dias de hoje. Acreditamos que ao manter o foco na longevidade como uma questão unicamente de envelhecimento, perdemos a amplitude de suas implicações. A longevidade não é apenas sobre envelhecer por mais tempo. É sobre viver mais tempo, sendo idoso por mais tempo e sendo jovem por mais tempo.

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Lynda Gratton é professora de Prática de Gestão na London Business School, onde ensina uma disciplina eletiva sobre o Futuro do Trabalho e dirige um programa executivo de Estratégia de Recursos Humanos. Lynda é Fellow do Fórum Econômico Mundial, função classificada como top 15 e foi nomeada melhor professora da London Business School em 2015. Seu livro mais recente, em co-autoria com Andrew Scott, é A vida de 100 Anos: Viver e trabalhar em uma era de Longevidade.

Andrew Scott é professor de Economia na London Business School e Fellow no All Souls College, na Universidade de Oxford, e no Centro de Pesquisa de Política Econômica. Scott serviu como conselheiro de macroeconomia para uma série de governos e bancos centrais e foi Administrador Não Executivo na Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido. É co-autor com Lynda Gratton do livro A vida de 100 Anos: Viver e trabalhar em uma era de Longevidade.

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Por | 2017-07-25T11:16:17+00:00 18/07/2016|0 Comentários

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