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Dada Novais

“O que fazer com este corpo que me deserta enquanto a mente permanece intacta?” Simone de Beauvoir em A Cerimônia do Adeus

O sonho era de menina, mas foi vivido também na maturidade. E então foi vivido cheio de poesia e afetividade. Dada Novais, 63 anos, queria ser, foi, é e será bailarina sempre. No passado, os shows eram dados em casa, durante as férias na fazenda dos avós. As sapatilhas e malhas foram vestidas e revestidas com sonhos de apresentações à la Ducan.

A imaginação corria tão solta que a paixão levou a paraibana para fora. Lá morou em Londres e fez aulas no Dance Center em Convent Garden. Nostalgia? “Foi um tempo maravilhoso! Foi quando me casei e engravidei. Parei de dançar por um tempo, mas de volta ao Brasil, em Porto Alegre, retomei o ballet menos como sonho e aspiração profissional e mais como hobby. Fui morar no Rio de Janeiro e troquei a dança pela corrida e a musculação. Voltei para João Pessoa depois de tantos anos fora e encontrei a profissão jurídica, me tornei defensora pública. Por bons 30 anos fiquei afastada do ballet clássico e do jazz.”, conta Dada, a bailarina.

Mas o corpo nunca deixou de falar, de se movimentar, de expressar a vida e de se expressar com vida. Então por que não agora, na maturidade, retomar a dança? A sensação foi sinestésica. “Voltei a ser escolar. Não me cansava de me ver no espelho dançando. Uma alegria só. A cada passo ou posição as lembranças são retomadas. Os termos franceses, tão sofisticados, esquecidos no tempo, vêm à memória de forma suave e afetiva. O tempo que havia ficado lá atrás me abraçou”.

E o abraço chegou na melhor hora. “Por mais que se negue, por mais que se lute, o tempo não regride, nem para! Um velho clichê, que a alguns aflige e desespera. Começamos a correr com o tempo desde que nascemos. Vamos mudando, crescendo, focamos nos anseios, construímos sonhos sem nos darmos conta, na verdade, de que seguimos ao encontro do entardecer, do outono, do envelhecer. Meu corpo físico mudou, perdeu elasticidade, a textura da pele, os músculos não são mais os mesmos. Mais flácidos! Embora tenha uma atividade física intensa, e consiga manter meu peso satisfatório, sinto o irreversível avançar dos anos. Sinto mudanças ocorrerem a cada dia sim. Na cabeça mudanças acontecem também! Mudanças que me agradam bastante! Uma forma mais livre de pensar e de ver o mundo, mais pacificada com as diferenças, cobrando menos de mim e dos outros.”.

Com novas perspectivas para as cobranças de uma bailarina e revendo conceitos, antes julgados a ferro e fogo britânico, a maturidade levou o medo de um relógio que não para nunca de girar. Para Dada envelhecer de forma saudável física, emocional e espiritualmente é só o que importa. A construção desse envelhecimento, em contrapartida, é constante e consciente. As escolhas são diárias também. “No momento vivo uma transição. Sei disso! Como será essa mudança, a cada dia, mais palpável? Isso não sei! E tudo bem. Vivo no tempo presente, espreitando o entardecer ainda a chegar, procurando estar o mais alegre e saudável possível.”

As diferenças do ontem para o hoje? “Na primeira fase que dancei vivi um tempo ansioso de buscas. Agora, não sei explicar direito, é como se não tivesse mais tempo para perder provando nada a ninguém. Danço só para gostar e sentir prazer mesmo! Dançar me alegra e a alegria quando segue junto ao envelhecimento torna todo o processo mais bonito, mais em paz. Há uma frase de Simone de Beauvoir, no livro A Cerimônia do Adeus, que diz “O que fazer com este corpo que me deserta enquanto a mente permanece intacta?”. Sempre penso nela. A meu ver, o envelhecer ideal acontece quando esse entardecer da vida vai caindo de forma conjunta entre mente e corpo para se transformar em descanso, até o fim”.



Por | 2017-09-05T21:22:02+00:00 05/09/2017|1 Comentário

Um Comentário

  1. Rosane Toscano 07/09/2017 em 08:38 - Responder

    O antes e o depois somam um hoje em momentos+++

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