De repente sua primeira amiga querida faz 70 anos

Marta Pessoa

Os aniversários, seus e dos amigos, passam a ter significados especiais quando o tempo vivido é maior do que o que se tem por viver. É uma conta sem muita lógica que não se rege pela matemática mas o resultado tem sempre cara de déficit. Quando se chega a esta idade, são poucos os que tem uma forte esperança de viver mais outro tanto.

Os 70 anos de uma grande amiga é coisa muito esquisita. Talvez pela novidade. É desconcertante pensar que temos uma amiga idosa. Talvez, pela resistência em aceitar uma realidade incômoda, não é fácil encarar a passagem do tempo. Mas esta nova idade é uma grande novidade que mexe com os sentimentos mais contraditórios, que nem sequer sabíamos guardados dentro de nós.

Começamos a remexer as gavetas do coração e vamos encontrando lembranças alegres de um passado que nos presenteou com uma amizade que nos fez melhor e mais felizes. Ao mesmo tempo, damos de cara com sentimentos que roubam da gente a felicidade vivida antes. São emoções que, ao mesmo tempo, queremos e não queremos sentir. Independente da idade que se tem, os 70 de uma amiga vai nos por de frente a um espelho com cara de fila. Numa lista de espera para eventos dos quais não sabemos bem se queremos participar, alimentando a ilusão que nos cabe escolher.

Os 70 de uma amiga nos deixa de coração mole e saudoso, nos faz nostálgicos, deixa esta amizade mais forte. Mesmo se ela tiver acabado ou se ainda seguir adiante, unilateral, por teimosia só sua.

Uma data como esta é impossível não celebrar, estando sua amiga viva ou morta. Idem, para a amizade que um dia as uniu. Nem sempre a amiga setentona continua nos aceitando como amiga mas não importa, uma amizade sempre nasce sincera e não precisa de vias de mão duplas para continuar existindo.

Nesta celebração não pode faltar um presente, um daqueles que dê alegria a quem recebe mas também a quem presenteia. Nada que mais se encaixe nesta condição que um poema. Ou dois. Um pra alegrar, outro para alertar. Ambos refletindo a dimensão especial que o tempo tem para as amizades.

Aniversário de amigos
Marta Pessoa

Não lembro dos aniversários tristes

Só dos alegres.

Lembro apenas dos tempos em que éramos jovens e felizes

Lembro somente do tempo em que a vida não havia endurecido nossos corações

Nem anuviado nossas ideias.

Recordo só os aniversários de uma época em que éramos generosos e protetores da nossa amizade.

Quando o perdão estava a postos mesmo sem ser necessário,

Quando víamos um ao outro como causa de felicidade.

Lembrança vívida de uma cumplicidade tão grande

Que era difícil mesmo separar a ideia do autor.

Lembro de aniversários sem nenhum motivo para alegria

Mas cheio de risadas e certezas boas.

Gargalhadas sobre as derrotas e risos sobre as esperanças.

Festa de beijos e abraços.

Sem roupa nova, sem dinheiro e sem namoro querido ou bacana.

Clima de amor por viver.

Festejos de uma idade que se sabia transitória mas de uma amizade suposta ser eterna.

Ser jovem é saber ter amigos imperfeitos. Aos 20, 30, 40 ou 70.

Aniversário
Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus !, o que só hoje sei que fui…
A que distância ! …
(Nem o acho …)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos !

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lagrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio….

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, este tempo !
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui …
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado – ,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração !
Não penses ! Deixa o pensar na cabeça !
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus !
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira !…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos ! …

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Por | 2018-10-30T10:46:03+00:00 14/06/2017|0 Comentários

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