Longevidade é Estilo de Vida

Texto Maristela Velloso

A mitologia conta que a fonte da juventude era um rio que saía do Monte Olimpo, passava pela Terra e, como vinha supostamente de onde viviam os deuses, teria a propriedade de dar a imortalidade a quem provasse de suas águas. Registros de 700 anos a.C já falavam de um poço da juventude; um conto hebraico indica que até Alexandre, O Grande, teria buscado o rio da imortalidade.

Há muitas lendas a respeito; na Idade Média, várias viagens de exploração foram patrocinadas por impérios e foi assim que o explorador espanhol Ponce de Leon (1460-1521), que passou boa parte da vida correndo atrás da mitológica Fonte da Juventude, virou referência para a humanidade sobre essa busca incansável, por driblar o efeito do tempo e ser jovem para sempre.

Ele nunca encontrou a fonte mas, curiosamente, descobriu a Florida, o Estado americano com a maior concentração de idosos, do País que invariavelmente contribui com pesquisas, escritos e importantes avanços científicos no campo do combate ao envelhecimento. Foi de lá a maior parte das referências citadas pelos palestrantes da Life Coach, uma das semanas temáticas promovidas pelo Spa Lapinha, em Curitiba, que reforçou mais uma vez o conceito de que o caminho para a longevidade é o estilo de vida saudável.

18767901_1479974502073501_8790383752482087061_n“Sem saúde quem quer viver muito? Os trabalhos científicos comprovam que podemos acrescentar muitos anos à nossa vida e muita vida aos nossos anos; o segredo da juventude não é tão sigiloso assim”, brinca Dr. Daniel Boarim, responsável médico do Spa, que faz 45 anos este ano mantendo-se fiel à missão da fundadora do local, Margarida B. Langer. Ela decidiu difundir terapias naturistas criando o primeiro Spa médico do Brasil, depois de ser curada de um sério problema gástrico.

Visionária, Dona Margarida percebeu que havia necessidade de criar um lugar onde as pessoas pudessem reaprender o valor dos antigos hábitos de saúde e bem-estar, utilizados desde a Grécia antiga pelos sábios, como Sócrates, Platão e Hipócrates, este, inclusive, tido como o pai da medicina naturista – para os estudiosos, a trofologia, ciência que ensina a cultivar a saúde por meio de alimentação. Justamente os conhecimentos que as pesquisas de ponta comprovam ser a fonte da longevidade com qualidade, um belo sinônimo de plenitude.

Alimentação adequada, dieta hipocalórica, exercícios físicos, vida social saudável e alegria de viver. Parece simples e óbvio, mas o dia a dia tem nos mostrado que está cada vez mais difícil cumprir esse roteiro. A recomendação ainda inclui sono tranquilo e satisfatório de seis a oito horas por noite e preferencialmente iniciado antes das 23h, pois é importante o corpo respeitar o seu ritmo orgânico. Este foi o tema da preleção do clínico geral e psiquiatra Luiz Strieski, também médico da Casa, especialista em medicina Circadiana. “Dormir, comer e se exercitar a qualquer hora do dia ou da noite bagunça nosso relógio biológico e faz mal à saúde”, resume. Vem a ser este um dos motivos do mau funcionamento do organismo, especialmente do sistema digestivo, foco da fala do Clínico Geral Jona Haertel, há 35 anos atuando na equipe do Spa.

A programação da Semana da Longevidade incluiu ainda um alerta contra a síndrome de burnout, um distúrbio psíquico de caráter depressivo, cada vez mais frequente nas sociedades modernas. Dr. Helnio Judson, Clínico Geral e Nefrologista, Diretor da Clínica Adventista de Curitiba e autor dos livros Brinde à Saúde e Viva Mais Leve resumiu que essa é a doença de quem se preocupa demais com os outros, entrando em completo esgotamento físico, mental, social e espiritual.

Alimentação balanceada, estilo de vida saudável e alegria de viver! Este é o tripé da saúde, conceito que permeou todas as apresentações do evento e culminou numa reflexão sobre paz interior, perdão e espiritualidade, mediada por Dieter Brepohl, neto de Dona Margarida e atual gestor da Lapinha, certificada em 2012 e 2013 como o melhor Spa das Américas pelo World Spa Award.

2 PRÊMIOS NOBEL DE MEDICINA & LONGEVIDADE

Dr. Daniel baseou cientificamente a relação de estilo de vida com longevidade relacionando os prêmios Nobel de Medicina de 2009 e 2016. Em 2009, três cientistas – a australiana Elizabeth Blackburn, a americana Carol Greider e o inglês Jack Szostak -, receberam o prêmio pela descoberta da telomerase, uma enzima que, numa linguagem mais compreensível, seria capaz de estimular a renovação celular perdida com o esgarçamento dos telômeros, origem do processo de envelhecimento.  A principal função dos telômeros é impedir o desgaste do material genético e manter a estabilidade estrutural do cromossoma.

A pesquisadora catalã Marta Crous-Bou, da Escola Médica de Harvard (Estados Unidos), também publicou na revista científica de referência British Medical Journal os segredos genéticos que explicariam por que uma dieta saudável contribui para uma maior expectativa de vida, afirmando que a chave está nos telômeros. Os telômeros protegem as pontas dos cromossomos que contém nosso material genético dentro das células, como se fossem aqueles invólucros de plástico que cobrem as extremidades dos cadarços de um sapato. Seu comprimento é associado com a expectativa de vida, por isso, à medida que envelhecemos, os telômeros ficam mais curtos.

Sua equipe observou que uma prática maior da dieta mediterrânea relacionou-se com telômeros mais longos. Os cientistas analisaram amostras de mulheres sadias que fizeram parte da Nurses’ Health Study, um dos mais longos e duradouros estudos sobre os fatores que influem na saúde da mulher. O trabalho reuniu dados dos hábitos de vida de milhares de mulheres por mais de 20 anos e o resultado foi percebido pelo estado de seus telômeros impressionantemente conservados.

Telômeros curtos impedem a renovação das células, causa do envelhecimento. E as dicas para manter os telômeros em bom estado são, basicamente, fazer exercícios físicos, manter o IMC (índice de massa corporal) adequado e diminuir o stress oxidativo, que acontece quando a os radicais livres perdem para os antioxidantes do corpo.

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As pessoas obesas têm telômeros mais curtos que as magras. De acordo com a OMS, obesidade feminina está relacionada com IMC superior a 30,  e dos homens, acima de 20. Mas a boa notícia é que com a perda de peso é possível recuperar  o alongamento dos telômeros.  O estresse oxidativo está relacionado com as agressões por radicais livres de oxigênio às membranas celulares e às organelas das células. Estes radicais são exacerbados pelo álcool, abuso de medicamentos, fumo, poluição, sol, exposição aos pesticidas e a metais pesados. O estresse oxidativo leva a um processo inflamatório. Os indivíduos que apresentam maior estresse oxidativo e inflamação são os que têm os telômeros encurtados.

Outra comprovação: em 2013, a Revista The Lancet Oncology divulgou o resultado de uma pesquisa feita pela Universidade da Califórnia com 35 homens diagnosticados com câncer de próstata de baixo risco. Dez foram selecionados para um tratamento que propunha sérias mudanças no estilo de vida, com adoção de uma dieta vegetariana acompanhada de exercícios físicos  moderados, prática de técnicas de gerenciamento de stress, como ioga e meditação, e maior proximidade com famíliares e amigos, pois, segundo os estudos, isso  pode fazer com que o DNA no interior das células se recupere do desgaste acumulado ao longo do tempo.  Cinco anos depois, os resultados foram surpreendentes: os 25 indivíduos que não passaram por nenhum tratamento apresentaram um leve envelhecimento no nível celular, com o comprimento de seus telômeros diminuindo 3%. Já os voluntários que adotaram mudanças abrangentes em seu estilo de vida rejuvenesceram; seus telômeros aumentaram, em média, 10%.

Os pesquisadores já sabem que comprimentos menores dos telômeros estão associados a um risco maior de morte prematura e doenças relacionadas com a idade, incluindo muitas formas de câncer – como o de mama, próstata, pulmão e colorretal -, doenças cardiovasculares, demência, AVC, osteoporose e diabetes.

“Se confirmarmos esses resultados em estudos de grande escala, vamos ser capazes de provar que mudanças globais no estilo de vida podem reduzir significativamente o risco de uma grande variedade de doenças e mortalidade prematura”, disse então o pesquisador Dean Ornish, autor do estudo.

♦ Jejum como técnica de restrição calórica

O Nobel de Medicina de 2016 deu embasamento científico à outra recorrente orientação: comer pouco e usar jejum como remédio. Parece estranho defender que ficar sem comer pode fazer bem à saúde, mas o cientista Yoshinori Oshumi foi premiado por suas descobertas importantes no campo da autofagia, que vem a ser uma estratégia de sobrevivência dos organismos desnutridos para fazer com que as células digiram partes de si mesmas, redistribuindo nutrientes para as atividades mais essenciais. A ação, além de destruir organelas celulares (estruturas que ficam dentro das células e executam funções vitais importantes) já desgastadas ou envelhecidas, processa uma espécie de controle de qualidade, fundamental para reduzir as consequências negativas do envelhecimento. Segundo ele, essa renovação pode simplesmente prolongar a vida.

“Ele não está propondo a inanição, naturalmente”, adverte Dr.Daniel, “mas há estudos muito antigos feitos com roedores, e até hoje usados como referência, que demonstram como uma dieta restritiva em calorias pode aumentar a expectativa de vida”. As pesquisas mostraram que quanto menos comeram mais tempo os ratinhos viveram. Comendo metade, acrescentaram cerca de 40% de tempo de vida.

A restrição alimentar, ao contrário do que se pensa, prolonga a vida de várias espécies, inclusive do ser humano, porque atenua o dano oxidativo e atrasa o início de doenças. Estudos da função celular mostram que os fatores relacionados ao envelhecimento são detidos pela simples diminuição de comida.

O conceito explica a longevidade dos Hunza, que vivem nas montanhas do Himalaia, na fronteira entre a Índia e o Paquistão, região conhecida como o “oásis da juventude”. Essa população vive em média 90 anos, quase nunca fica doente e tem uma capacidade extraordinária de manter-se jovem e saudável. Eles tomam banhos com água gelada, praticam esportes até a velhice, as mulheres que chamaríamos de Balzaquianas têm aspecto de adolescentes e não é improvável uma Hunza dar à luz depois dos 50 anos. Nas estações quentes, se alimentam de frutas e verduras cruas; no frio, damascos secos, grãos germinados e queijo de ovelha. Uma dieta a base de pouquíssima variedade de alimentos.

“Antigamente os empórios tinham pouco mais de uma dezena de opções; hoje os supermercados têm dezenas de milhares de itens alimentícios, a maioria absolutamente nociva à nossa saúde, colocados nas gôndolas por quem está preocupado com faturamento, e não com nutrição”, analisa Dr. Daniel.  “Precisamos repensar o hábito de comemorar tudo em torno de uma mesa farta de comida engordativa, prejudicial à saúde. Há muita comida e bebida saudável escondida por trás da cultura da comilança”.

O médico escocês, Robert McCarrison, soube entender por que os Hunza têm o dobro da expectativa de vida de povos vizinhos. Eles comem diariamente poucas calorias – incluindo apenas 50 gramas de proteínas, 36 gramas de gorduras e 365 de carboidrato -, e carne apenas em ocasiões extremamente especiais. Segundo ele, é precisamente por isso, e pela vida ativa que levam,  que não conhecem doenças.

A maioria das comunidades que têm vida longa compartilham dieta de baixa caloria e é assim também em Okinawa, no Japão, onde já foi comprovado que a população consome 40% menos calorias, vive em média 82 anos e tem 80% menos probabilidade de desenvolver ataques cardíacos, câncer de mama e próstata, em relação aos norte americanos. Em dois pontos extremos, porém mais próximos de nós, os baianos da cidade de  Santa Inês e os habitantes de Feliz, no Rio Grande do Sul,  trazem em comum a prática de dieta hipocalórica e exercícios regulares, estando entre os índices de longevidade mais altos do Brasil.

Parece conversa de médico, mas não é tão difícil entender que a restrição calórica prolonga a vida útil porque faz uma reorganização do metabolismo mitocondrial. A mitocôndria é a usina de energia da célula e a restrição de calorias regula a biogenese, porque “é como se o corpo estivesse dando um tempo para a mitocondria se recuperar dos danos oxidativos causados pelos radicais livres dos alimentos”, explica o médico. A proposta é de que, quando necessário, se faça um jejum terapêutico, uma diminuição na ingestão de alimentos. O que reforça uma ideia já comum que de vez em quando precisamos de um detox, também indicado para reeducação de um paladar corrompido por maus hábitos de gratificação espontânea. Quem já não teve vontade de se entupir de chocolate ou sorvete depois de um aborrecimento?

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EPIGENÉTICA

Sempre ouvimos dizer que os genes eram os únicos responsáveis por passar as características biológicas de uma geração à outra. Com pai e mãe diabéticos,  por exemplo, era inevitável esperar sofrer do mesmo mal e ser uma vítima da famigerada predisposição genética. Hoje sabemos que variações não-genéticas (ou epigenéticas) adquiridas durante a vida de um organismo podem frequentemente ser passadas aos seus descendentes e que existem evidências científicas mostrando que hábitos da vida e o ambiente social em que uma pessoa está inserida é capaz de modificar o funcionamento de seus genes. Em linguagem acessível, podemos dizer que é possível driblar a genética a partir de um estilo de vida saudável.

Outra fonte de preocupação relacionada à saúde diz respeito à falência dos sistemas públicos e privados de assistência médica. Segundo Dr. Boarim, o percentual de influência desses dois fatores pode ser minimizado. E é importante que sejam dados os pesos certos aos fatores que fazem uma pessoa viver além dos 65 anos. Segundo estudos da Universidade de Stanford, a genética contribui com 15%, o meio ambiente com 20%, 60% é por conta do estilo de vida e somente 5% dependem dos serviços médicos.“Se déssemos mais atenção ao que é realmente relevante, não precisaríamos pensar em medicina de alta complexidade e grandes investimentos em políticas públicas de saúde”, acredita.  Mas a maioria não vê relação entre saúde e estilo de vida, embora os hospitais estejam sempre lotados.

longevidade e estilo de vida - legumismo

 

A ERA DO LEGUMINISMO

Superestimar o prazer em comer e não gostar de atividades físicas são os maiores inimigos de quem pretende optar por uma vida saudável. Estão aí dois adversários que precisam realmente ser vencidos, mas há mitos participando desta luta. O primeiro é o que erroneamente diz que toda comida boa para a saúde é ruim para o paladar. O conceito de saudável e saboroso não se opõem. É possível ter uma alimentação saudável, atraente e apetitosa. A cozinha brasileira é riquíssima em ingredientes naturais e há muitos livros de receitas, chefes e restaurantes que já adotaram a mania fitness.

Verduras, legumes, frutas e raízes viraram estrelas, protagonistas em criações de cozinheiros badaladíssimos. Enobrecer legumes e verduras é uma verdadeira tendência e com tantas cores à disposição fica fácil montar pratos belos e gostosos. “Importante que a comida seja primeiramente atraente aos olhos”, defende Dr. Daniel.  Fora isso, há uma série de plataformas, aplicativos, sites e ferramentas tecnológicas que facilitam o acesso a produtos e soluções da melhor qualidade para quem quer comer direito. Já foi dito que estamos na era do leguminismo, apesar da média de consumo de vegetais pelos brasileiros ainda ser de 115g, quando a Organização das Nações Unidas pela Alimentação e a Agricultura recomenda 400g. Na Lapinha a orientação é que as porções de hortaliças representem a metade de toda a comida ingerida por dia.

Um segundo obstáculo: “detesto malhar”!  Dr. Daniel pondera que a vida é feita de escolhas. “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convêm”, parafraseia o apóstolo Paulo. “Ter uma vida sedentária e comer tudo o que quero me deixará escravo dentro de um corpo que não quero”. Só não aconselha exagerar, principalmente o público 60+, para quem ele sugere os exercícios incrementais, aumentados gradualmente, sem esforços excessivos. “Ninguém precisa virar maratonista de um dia pro outro!”. Exercício demais é prejudicial, mas na medida certa resulta em melhoras significativas da função cognitiva, porque oxigena o cérebro.

Uma pesquisa desenvolvida em 2015, em Rio Claro, no interior paulista, comprovou que, ao sair do sedentarismo, um grupo de idosos conseguiu reduzir sintomas característicos de uma predisposição ao Alzheimer. Outro, que faz parte da tese de doutorado da especialista em ciência do esporte e neurociência Camila Vieira Ligo Teixeira, do Laboratório de Neuroimagem e Física Médica da Unicamp, ofereceu resultados significativos na mesma área. Após seis meses de treinamento com exercícios, um grupo de 25 pacientes com uma forma leve de Alzheimer obteve melhora clínica, com menos estresse, apatia e depressão.18740757_1479974992073452_5791656248355952689_n

Atividade física dá prazer, portanto, uma pessoa que costuma não gostar de malhar deve procurar o exercício menos desagradável e insistir gradativamente até que a produção de Serotonina comece a fazer diferença e seu corpo associe as melhoras totais ao movimento regular. Precisa dar tempo para o corpo gostar, porque um ganho leva ao outro.  Praticar atividades físicas não se resume a contar gramas e calorias. Ninguém deve se sentir obrigado a virar atleta, mas o exercício é insubstituível;  o índice de músculos contribui para a condição geral da saúde.  “Mesmo os magros podem ter massa muscular insuficiente”, explica o médico.  É importante manter uma boa relação entre os percentuais de gordura e músculo. Nas mulheres com mais de 60 anos, os índices de gordura não devem ultrapassar 30%; nos homens, 20%.

Um jovem de 20 anos terá perdido cerca de 50% da sua massa muscular quando chegar aos 90 anos.  Bom lembrar que os jovens de hoje provavelmente chegarão a essa idade! A perda de massa muscular é responsável pela redução da força, pelo aumento do risco de quedas e pela lentidão nos movimentos, resultando em crescente dificuldade na realização das atividades diárias. Menores quantidades de músculo contribuem para risco de doença cardiovascular, diabetes e hipertensão, e diminuição da densidade óssea e da capacidade aeróbica.

Esse povo tão longevo, os Hunza, contribuem ainda com uma premissa ratificada pela maioria de especialistas em boa nutrição: não se deve comer muito à noite. Está provado que as calorias ingeridas à noite elevam a glicemia em 17% a mais, em relação ao que se ingere durante o dia, devido à alteração dos hormônios que trabalham nesse período.  O resultado será melhor se a opção noturna for por um prato de sopa de legumes cozidos. É certo que legumes e verduras devem ter prioridade na alimentação, porque são ricos em antioxidantes, que combatem os radicais livres, responsáveis pela morte das células, mas à noite convém deixar os alimentos crus fora do prato, bem como as proteínas e carboidratos.  Nem tudo que é bom, faz bem à noite.

Durante o dia, no entanto, frutas, legumes e verduras podem e devem ser consumidas em abundância; as últimas pesquisas de Harvard recomendam 4 porções de frutas e 4 de hortaliças diariamente. Com destaque para as frutinhas roxas e vermelhas, como morango, amora e os mirtilos (blueberry), riquíssimas em flavonóide, que possui ação ação anti-inflamatória, reguladora hormonal, anti-hemorrágica, anti-alérgica, entre outras.

Ninguém duvida de que o grande adversário da proposta de reeducação alimentar e de uma profunda revisão de hábitos e estilo de vida é o ritmo do nosso cotidiano.  Médicos naturistas garantem que os alimentos podem curar, mas a vida nas grandes metrópoles faz disso um desafio penoso. Nos aeroportos, por exemplo, é fácil achar opção de lanche saudável? Com a quantidade de reuniões numa agenda de trabalho, dá para parar, escolher um bom prato, mastigar suficientemente e só retornar às tarefas depois de alguns minutinhos de meditação?  É possível encontrar comida adequada nas praças de alimentação do shopping? O modelo ideal é distante e soa filosófico, mas contra fatos não há argumentos: viver sem critérios tem consequências. A velhice sem saúde é preocupante. Ruim tanto para quem envelhece, quanto para quem cuida.

MEDICINA CIRCADIANA: A LÓGICA DA NATUREZA – SONO É SAÚDE

Estão certas as propagandas de colchão que nos advertem sobre o valor do terço da vida dedicado ao sono, mas estudos indicam que é mandatório para o equilíbrio do organismo que esse período de descanso seja noturno, e o de vigília diurno. Simples compreensão: não basta dormir, tem que ser à noite! Essa é a primeira conclusão lógica a que se chega quando a matéria é Medicina Circadiana, o estudo dos ritmos biológicos e fisiológicos que promovem a adaptação dos seres vivos às ocorrências cíclicas da natureza – o dia e a noite para o homem e até as estações do ano para os animais. É importante, portanto, que nossas atividades estejam ajustadas ao relógio interno, controlando principalmente sono e apetite.

Circa+diano = circundando o dia. Os estudos apontam que esse ciclo influencia vários aspectos da saúde, mas especialmente o funcionamento do intestino.  “A gente não dorme e acorda à toa; acontecem coisas no nosso corpo para que isso aconteça”, simplifica Dr. Luiz Strieski. Não por acaso, muitas pessoas têm dificuldade para adormecer. Quando o padrão de sono não vai bem – avaliação feita pelo exame chamado polissonografia -, alguma coisa está errada com a pressão arterial e as frequências cerebral, cardíaca e respiratória. Dependendo do metabolismo, indutores do sono podem ajudar, mas o fato é que dormir é natural, um estado essencial para o organismo, dada à relação direta entre o funcionamento do nosso corpo e os sinais ambientais.  “Tudo na natureza ocorre em horários certos; o sol nasce, se põe, os bichinhos vão dormir; só o homem é que faz essa confusão toda”, brincou Dr. Daniel, ao antecipar o assunto na abertura do evento.

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Diversos sistemas do nosso corpo são regulados pelo sono e os mecanismos neurofisiológicos estão relacionados à qualidade e ao ritmo deste ciclo sono-vigília, mediado pelo claro e escuro do dia. É o que mantém a homeostase, o equilíbrio do corpo. Durante o dia, entram em ação os hormônio chamados corticosteróides, que nos mantêm acordados. À noite, caem os hormônios e sobe a melatonina.  O conhecido relógio biológico é um pequeno núcleo do cérebro para onde a retina envia pistas ambientais, os estímulos luminosos, junto com as interações hormonais. Ficou escuro, a retina manda o sinal, o corpo manda outros, e o relógio entende que está na hora de dormir. Ou acordar, dependendo da situação.

Esses hormônios ativados de dia, responsáveis por diversos mecanismos regulatórios que proporcionam um equilíbrio orgânico diante das inúmeras situações de estresse do dia a dia, aumentam a temperatura corporal e inibem a liberação de melatonina. As pistas ambientais ativadas no período noturno diminuem a temperatura, liberam a melatonina, reduzem os níveis hormonais.   Esse é ciclo que precisa ser equilibrado entre o dia e a noite, motivo pelo qual os médicos nos aconselham a dormir cedo e bem.  “Nossa vida é muito corrida; às dez da noite, quando acontece o pico de liberação da melatonina e devíamos estar indo dormir, estamos chegando em casa, ainda para jantar e tentar relaxar!”, conclui Dr. Luiz.  Para desacelerar, costumamos lançar mão de estímulos luminosos – TV e computadores -, que agravam a situação, bloqueando ainda mais a liberação do hormônio de indução ao sono, que precisa de escuro para agir.  A luminosidade inibe a produção da melatonina e afasta o sono.

É possível que os conhecidos como notívagos apresentem um registro de atraso ou antecipação deste ciclo, assim como há quem necessite de menos do que a média de 6 a 8 horas de sono para resetar o organismo e estar pronto para recomeçar as tarefas do dia, mas as exceções não alteram uma regra: as interrupções deste movimento orgânico são responsáveis pela exacerbação de diversas doenças crônicas, porque é ele que regula as múltiplas funções do trato intestinal.

O sono bom traz saúde, o conturbado não. Este ciclo tem a ver com saúde porque determina a produção de substâncias a partir dos horários que escolhemos para dormir, comer e nos exercitar. Os metabolismos diferem e há quem goste de malhar à noite, por exemplo. Mas, novamente, é importante perceber que esse hábito não altera a regulação que os hormônios sofrem a partir do ritmo circadiano. “Pode ser que a pessoa durma por completa exaustão, mas o período da noite não é ideal para o exercício”, defende o médico.

Em maio do ano passado foi realizado em Chicago o primeiro Simpósio de Ritmos Circadianos na Saúde e Doenças Gastrointestinais, em que foi refletido o papel das perturbações do equilíbrio sono-vigília nos casos de doenças associadas ao estilo de vida atual, principalmente à obesidade, às síndromes metabólicas e ao câncer. Do bom funcionamento do ciclo circadiano depende a renovação das células, o equilíbrio imunológico e a permeabilidade intestinal.  Em linguagem bem simples, podemos dizer que quando desrespeitamos o ciclo circadiano, a membrana que envolve o intestino passa a ter menos defesas contra as coisas ruins que comemos. Assim como diminui a microbiota intestinal, causando principalmente constipação. A microbiota, ou flora intestinal, é composta por grande diversidade de bactérias que desempenham diferentes funções, entre elas a absorção dos nutrientes.

O álcool, mesmo em pequenas quantidades, também pode produzir e agravar perturbações quando o ritmo circadiano não está sendo respeitado. Numa pesquisa feita com trabalhadores noturnos, foram percebidas alterações inflamatórias importantes frente ao consumo de pequenas quantidades da bebida, comprovadas por marcadores inflamatórios.  Novamente o corpo dizendo que algo pode ser mais ou menos prejudicial à nossa saúde, dependendo da hora, do quanto e de quão bem dormimos.

Outro tópico abordado no simpósio foi a síndrome metabólica, que vem a ser um conjunto de doenças resultantes deste desalinhamento, cuja base é a resistência à insulina – hormônio produzido pelo pâncreas que ajuda a controlar o nível de glicose (açúcar) no sangue.   Sua função é regular a quantidade de nutrientes circulando na nossa corrente sanguínea.

Embora atue principalmente no controle da glicose no sangue, a insulina também afeta o metabolismo de gordura e de proteínas.  A resistência à insulina é o termo que designa o estado em que o corpo deixa de reagir à insulina. Se essa insulina não funciona bem, as células precisam de cada vez mais insulina para permitir o transporte de glicose entre elas e isso faz com que o açúcar no sangue aumente e a energia nas células diminua.

O pâncreas continua produzindo cada vez mais insulina em resposta à elevação de glicose no sangue, mas o corpo não reage como deveria. Os níveis de açúcar aumentam e forma-se o quadro de síndrome metabólica, identificada quando há pelo menos três dos seguintes sintomas: circunferência abdominal maior que 88cm na mulher e 102cm no homem, hipertensão arterial com níveis superiores a 13 por 8,  glicemia de jejum acima de 110, ou o próprio diagnóstico de diabetes, triglicerídeos  acima de 150,  colesterol HDL baixo –  bom acima de 40 para homem e  acima de 50  para mulher -, e LDL alto, acima de 130.

Evidências também demonstram comunicação entre o cérebro e o intestino através de mecanismos neurohumorais (neurotransmissores, hormônios), o que quer dizer que o sono e a alimentação têm a ver com a função cerebral. Alguns estudos comprovam que há correlação entre doenças neurodegenerativas, como Parkinson, e um funcionamento intestinal inadequado. Este quadro é diferente quando o ritmo circadiano é respeitado. A prevenção é primária: melhorar o ciclo do sono, ou seja, dormir tempo suficiente à noite!

As disritmias circadianas também contribuem para as doenças não-alcóolicas do fígado, como a esteatose. Dormir mal pode aumentar a gordura hepática e esse quadro evoluir para uma inflamação, capaz de provocar hepatite gordurosa, cirrose e até câncer. Importante relembrar: as células cancerígenas se proliferam em organismos doentes e desequilibrados; está provado que inflamações intestinais crônicas promovem a carcinogênese.  Incrível como uma noite de sono pode mudar tudo…

A MÁ DIGESTÃO ACABA COM A FELICIDADE

O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872) resumiu no ditado “o homem é aquilo que come” tudo o que o Dr. Jona Haertel, Clínico da Lapinha, prega sobre o valor da digestão. E, para ele, a boa digestão começa na boca, na mastigação. Comer devagar para dar tempo do estômago avisar ao hipotálamo, o centro da fome no cérebro, que estamos saciados  é realmente a estratégia correta. Em termos ideais, cada garfada deveria corresponder a cerca de 30 mastigadas para emulsionar corretamente o bolo alimentar. Como esse hábito está longe de ser adotado, mastigar bastante e dar um pouco mais de tempo e sossego para as refeições  já significa um grande avanço, porque quem come direito, com calma e mastigando apropriadamente certamente irá comer menos.

Dr. Jona nota certo menosprezo pelo importante papel do sistema digestivo na saúde integral: “85% do sistema imunológico é formado no sistema digestivo”, lembra ele, “de onde sai boa parte dos nossos anticorpos; ao todo são 400 metros quadrados de superfícies mucosas, curvas e vilosidades intestinais. O sistema digestivo também é responsável pela produção de  serotonina,  e abriga 100 trilhões de bactérias, aproximadamente 3 quilos”, alerta.  Há quase tantas terminações nervosas no sistema digestivo quanto no cérebro, o que explica a afirmação recorrente de que o intestino é nossa segunda cabeça; também justifica o termo enfezado (a) para quem está de mau humor, dado o nível de desconforto da constipação.

Comemos demais, muito rápido, com muita gordura, sempre em horários impróprios e em situações de estresse; está feito o quadro da catástrofe intestinal, que sobrecarrega o sistema digestivo e repercute na saúde de todo o corpo.  Para reorganizar essa bagunça algumas medidas são quase óbvias, outras nem tão sabidas – como os efeitos causados por alguns alimentos ingeridos à noite. “Neste período o corpo faz uma autolimpeza e praticamente interrompe a digestão; o carboidrato não  deve fazer parte das refeições noturnas porque fermenta e produz diversas substâncias que intoxicam nosso corpo; as proteínas entram em putrefação e também as produzem; a pior delas é  a cadaverina, cancerígena, produzida pela proteína animal”, afirma.  Essas toxinas saem do duto intestinal e vão para o duto toráxico, se espalhando por todo o corpo, o que explica por que de manhã as pessoas se sentem tão mal, quando comem até tarde. O alerta está dado: quem tem predisposição ao câncer de intestino deve evitar comer proteína animal no jantar.

A adoção de limpezas intestinais, seja pelo uso do sal amargo, utilizada no Spa, ou da hidrocolonterapia (lavagem intestinal), é bastante válida. A indicação de colonoscopia é regra para todos acima dos 50 anos, porque o exame consegue dar ao médico uma visibilidade importante do sistema digestivo, embora só inclua o intestino grosso. Para enxergar o delgado já existem alguns hospitais de ponta que oferecem um tipo de exame feito por microcâmeras, que o paciente engole. Em ambos os casos, quando há retirada de pólipos, os exames precisam ser repetidos anualmente. Quando não, só de cinco em cinco anos.

♦ Alimentação na terceira idade

Se o assunto é digestão na terceira idade, há detalhes curiosos.  O idoso aos poucos tende a apresentar uma certa falta de apetite mas, por incrível que pareça, com a idade o corpo começa a não diferenciar muito bem a fome da sede e eventualmente ele pede comida, em vez de água. É preciso identificar. Durante as refeições não é bom beber.  Melhor ingerir o líquido meia hora antes ou meia hora depois do prato, para não mudar o PH do estômago. Hábitos inocentes começam vagarosamente a ter consequências sérias: café, por exemplo, interfere na absorção do cálcio e deve ser evitado nessa fase da vida por causa das osteopenias e osteoporoses, que causam diminuição da massa óssea.

18813687_1479974612073490_2546027800967546504_nA alimentação merece atenção em qualquer fase da vida, mas com o avanço da idade os cuidados têm que ser redobrados.  Não adianta ter uma alimentação correta sem o mesmo funcionamento do sistema digestivo.  A digestão fica mais lenta então todas as refeições devem ser compostas por produtos bem digeríveis: ricas em fibras, para evitar absorção de colesterol e derivados, moderadas em relação ao sal e às bebidas alcóolicas, porque a função renal diminui com o tempo, e por esse mesmo motivo, com pouca ingestão de carnes. É importante ainda controlar o peso e equilibrar o teor calórico dos pratos, no que diz respeito à distribuição de proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e sais minerais, mantendo uma dieta mais balanceada possível.

Um vilão amargo: o açúcar. Pesquisa alemã recente apresentou um resultado impressionante sobre seus malefícios, alardeados há décadas. Um atleta passou 2 meses cumprindo uma pesada rotina de exercícios, consumindo 2300 calorias por dia,   mas sem  nenhum tipo de açúcar refinado, só o das frutas. Em seguida ele se prontificou a manter um plano igual de atividades e ingerir a mesma quantidade de calorias por dia, pelo mesmo período, com a diferença de que sua dieta incluiu açúcar: biscoitos, sorvetes, doces e geleias.  Ao final da segunda experiência ele tinha engordado 4 quilos.  No livro Sugar Blues, o jornalista americano William Dufty compara os produtores de açúcares aos traficantes de drogas. O Açúcar é digerido facilmente porque não tem nutrientes, mas eleva os níveis de glicemia e aumenta o depósito de gorduras da célula.

Boa parte das dicas para uma boa digestão convergem com os princípios de saúde pregados na Lapinha, que dependem do cultivo de hábitos simples.   Dr. Jona Haertel chama atenção para necessidade de se fazer as refeições em ambiente agradável, evitar discussões e tirar as crianças e os mais velhos da frente da TV, evitando que eles comam sem muita consciência. O ideal é jantar 3 horas antes de se deitar, e de preferência, ingerir alimentos cozidos. Apesar de admitir que a boa saúde dependa de certas iniciativas de disciplina, ele acredita no resultado. “Não se deve fazer da vida um regime, mas toda pessoa que levantar da mesa com fome nunca vai engordar!”

BURNOUT: QUANDO A SAÚDE FICA EM ÚLTIMO LUGAR

Para começar a falar de burnout Dr. Helnio Judson relembrou um caso extremo: a atleta corredora Gabriele Andersen, que chocou o mundo nas Olimpíadas de 1984 atravessando a linha de chegada quase sem conseguir andar. A cena foi usada como ilustração de quem extinguiu todas as suas reservas, apesar de superbem treinada e preparada para alcançar excelente resultado.

O exemplo ilustra exatamente como se dá a síndrome de burnout, este mal moderno, resultante de um estado de esgotamento físico, mental, social e espiritual, ligado à vivência de estresse profissional e que, perversamente, começa a dar sinais de alerta justo quando o portador demonstra ineficiência no trabalho.  É a síndrome da despersonalização, cujos sintomas principais são a exaustão emocional e a baixa realização pessoal. A doença acomete especialmente pessoas de primeiro nível, muito dedicadas, responsáveis, competitivas, que sabem o que querem, acreditam que podem ter sucesso e realmente se sobressaem em tudo o que fazem.

Na predominância, os profissionais que têm risco de entrar em burnout são os que cuidam dos outros, como enfermeiros, médicos, professores, secretárias, líderes eclesiásticos, policiais, juízes e gestores de um modo geral, incluindo as donas de casa, quando muito sobrecarregadas. Os traços em comum entre eles? Não sabem dizer não, não cuidam de si mesmos, esforçam-se em parecer bem e assumem excessivamente tarefas extras para as quais estão sempre disponíveis.  “Quanto mais manso o boi, mais pesada a carroça”, confirma o ditado popular. Ocorre com quem nunca rejeita trabalho e dá conta da entrega;  até que a casa cai.

Por alguma razão, as mulheres geralmente são mais sensíveis a entrarem em burnout Artigos divulgados no Western Journal of Medicine apontam que a situação é grave entre médicas, com ênfase nas que têm filhos e são casadas com médicos.  As causas mais avaliadas dizem respeito ao universo do trabalho, como intrigas na equipe e mau relacionamento com o chefe, mas há uma série de ocorrências no âmbito familiar que podem deflagrar um estado de precariedade total no humor, como divórcio, doenças e morte de entes queridos.

ritmo-Circadiano

A trajetória do problema para o burnout se inicia com as perturbações do sono.  O primeiro sinal de desequilíbrio leva a pessoa a dormir mal e, portanto, a não ter um período de descanso. Mas dormir é muito mais do que descansar, adverte o médico: “Quando você dorme existe um trabalho intenso de reconstrução de você”, explica ele;  “para que você fique amanhã do mesmo tamanho que é hoje, que seu cérebro e  seus músculos fiquem exatamente iguais”. É surpreendente imaginar que sem dormir estamos diminuindo nosso organismo, mas é o que acontece. E isso contribui para o estado de esgotamento, redundando em doenças frequentes, irritabilidade, insatisfação, pessimismo, perda de interesse pelo próprio trabalho, sexo, lazer, religião e todas as pontes com uma vida saudável.

Com uma vasta experiência na Medicina – fellowship em Nefrologia na Loma Linda University, na Califórnia, lecionou na Universidade do Mato Grosso do Sul e chefiou a residência em Nefrologia da Santa Casa de Curitiba -, Dr.Helnio Judson diz que está cansado de ver pessoas entrarem em seu consultório, atualmente na Clínica Adventista de Curitiba, querendo fazer um check-up porque acham que têm anemia, hipo ou hipertiroidismo, problema de rim ou de estômago, e na verdade o que elas precisam é se poupar.

Ele alerta ainda para alguns sinais importantes, começando pela ansiedade e a preocupação exagerada com fatos que nunca irão acontecer.  Universidades americanas fizeram uma pesquisa e provaram que é assim em 85% dos casos, a partir do relato de pessoas que sofrem do transtorno: se há apenas 15% de chance de alguma coisa dar errado, não vale a pena sofrer o tempo todo com tensão, medo, apreensão, perdas frequentes de sono, dificuldade de concentração, palpitações, falta de ar, tonturas, dores de cabeça, suores excessivos, queixas digestivas e tremores. São os sintomas mais frequentes de ansiedade, que começam a se implantar sorrateiramente com pequenas manias, do tipo conferir portas e janelas repetidamente, até evoluírem para ataques de pânico, pensamentos obsessivos e humor depressivo na maior parte do tempo. É muito frequente também que o paciente vítima de ansiedade e prestes a entrar em burnout se queixe de formigamento nos braços e na boca.

“Ansiedade e depressão caminham juntas”, instrui Dr. Helnio.

Perda de interesse por tudo, perda ou ganho de peso sem fazer dieta, transtornos do sono, cansaço e perda de energia, sensação permanente de fracasso, incapacidade de concentração, agitação ou lentidão na fala e pensamentos frequentes em morte e suicídio. É preciso ficar atento a esses inúmeros sintomas, que se traduzem no dia a dia em perda de senso de humor, nenhuma vontade de fazer exercícios, isolamento, tristeza, vontade de chorar o tempo todo, insônia ou sono excessivo, medo, culpa e alteração da libido.  Encaixando-se em pelo menos cinco desses tópicos, está na hora de procurar ajuda médica. Ciente de que não se trata, necessariamente, de uma tendência à depressão, mas de ter entrado no estado de burnout, em consequência de ter passado dos próprios limites no trabalho que se impôs ou de não ter conseguido se defender de um  volume exagerado de trabalho.

“Nesse ponto nada mais faz sentido para a pessoa”, explica. “É hora de fazer tratamento, tomar remédio, fazer uma terapia cognitivo-comportamental, dieta e um plano de exercícios”. Do contrário, podem surgir as compulsões por drogas ou álcool, deterioram-se os relacionamentos com cônjuges e filhos, perde-se o prazer  sexual, o gosto pelo trabalho, cresce o ódio pelo chefe ou pelos clientes e o desfecho costuma ser irreversível, com rompimentos sérios, como divórcio e demissão.  Mas é difícil a pessoa nesse quadro de crise admitir que precise de socorro. “Uma das características mais comuns de quem tem burnout é fingir que está tudo bem,  esconder de todo mundo que está doente e não aceitar que perdeu a capacidade de fazer o que fazia antes”,  afirma o médico.  Isso posterga o início do tratamento. Infelizmente, nem todo mundo tem um médico que o conhece e pode perceber quando as coisas vão mal. “Mas deveríamos todos ter pelo menos um médico que sabe nosso nome!”, conclui.

longevidade e estilo de vida

♦ Uma doença que acomete especialmente os profissionais da área da saúde

Pesquisas sobre casos de burnout com profissionais da área médica como pacientes dão uma dimensão da gravidade deste transtorno; são muito sérias as consequências das falhas que os profissionais de saúde cometem em função desse nível de esgotamento. Fundamentado por pesquisas publicadas na mesma revista americana de medicina, Dr. Helnio trouxe dados alarmantes: está provado que quanto maior a insatisfação dos médicos, menos os pacientes obedecem a suas orientações; quanto maior o número de casos de burnout nas equipes de enfermagem, maior a mortalidade nas unidades de terapia intensiva; médicos têm duas vezes mais chances de cometer suicídios do que a população em geral, e as médicas, três vezes mais!

Vários outros profissionais, cujo trabalho tem como essência o cuidado com o outro, repetem comportamentos quando entram em burnout, quebrando regras éticas, estabelecendo relacionamentos inapropriados com clientes e colegas. Tudo porque foi perdido o equilíbrio. As pesquisas da Dalhousie University, do Canadá, culminaram em recomendações preciosas, originalmente feitas para a classe médica, mas que funcionam com qualquer pessoa que não está sabendo se proteger: “o trabalho não é a sua vida; profissionais de sucesso são pessoas que cuidam de si mesmas”. “Inacreditável que seja preciso um artigo científico repetir isso para que tenhamos consciência”, lamenta Dr. Helnio Judson.

Os mesmos estudos elencaram as práticas de autoproteção mais eficazes contra a  doença: ter bons relacionamentos, em primeiro lugar com cônjuges e filhos, e não só com as pessoas do trabalho; ter religião pessoal ou somente cultivar a espiritualidade;   cuidar bem da saúde,  com exercícios regulares, alimentação e descanso adequados;  limitar as horas de trabalho e buscar atividades de lazer. Por fim, encarar a vida positivamente. Simples assim.

Por | 2017-10-01T19:22:35+00:00 29/05/2017|5 Comentários

5 Comentários

  1. […] mental deixados de lado anteriormente (já ouviu falar sobre a Síndrome de Burnout? Leia mais aqui). Preocupações contemporâneas em relação a novos arranjos de vida, finanças, problemas […]

  2. Marcia Barros 06/07/2017 em 10:42 - Responder

    Maravilhosa a matéria, mega informativa. Gratidão!!

  3. Margareth Bucker 09/07/2017 em 15:50 - Responder

    Muito boa a matéria, e nos ajuda a refletirmos no nosso dia a dia. ” Tudo podemos fazer, mas nem tudo devemos fazer”.,nosso corpo e mente agradecem.
    Se queremos viver mais, que seja com saúde em todos os sentidos.
    Obrigada…

  4. Ana Adelaide Peixoto 10/07/2017 em 07:16 - Responder

    Que matéria importante! Já sabemos de muitas coisas, mas ler escrito, por quem trabalha, pesquisa e expõe de maneira clara e elucidativa faz a gente parar pra pensar. Vou salvar a matéria para ler de quando em vez como alerta para tantas coisas. Viver bem é o que importa. Parabéns ao Mundo Prateado que nos possibilita à tanta informação preciosa. Abraços Ana Adelaide Peixoto

    • Luiza Morena 10/07/2017 em 19:00 - Responder

      Olá Ana, ficamos felizes em poder compartilhar experiências e trocar ideias com pessoas como você. Nosso propósito é comum! Grande abraço, Luiza

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