Manchester, uma cidade amiga dos mais velhos

Atenção: vamos falar sobre velhos? Sim, idosos, carinhosamente prateados. Mas, velhos. O estigma que acompanha a palavra precisa ser deixado de lado, atitude que há algum tempo vem destacando a cidade de Manchester, no Reino Unido, como um lugar “age-friendly” para se viver. Os rótulos que se colam aos mais velhos estão sendo quebrados e o que se descobre é uma cidade-espelho para o mundo. Vem saber mais!

Uma reflexão a se fazer: se o aumento da expectativa de vida é uma das maiores evoluções para uma sociedade, qual o motivo para tanta recriminação e marginalização da velhice nos dias de hoje?

Os discursos são amplamente conhecidos em qualquer lugar do mundo: “o envelhecimento é uma bomba demográfica, um fardo, que irá arrasar os sistemas de proteção social, destruir os serviços nacionais de saúde, esmagar a produtividade do país”.

Embora exista – e muito – quem compreenda a inversão da pirâmide demográfica e o aumento da população 65+ a partir de 2030 da maneira citada acima, há também quem a enxergue como uma verdadeira conquista, que assim como qualquer outra necessita de zelo e cuidados especiais.

E é por tal motivo e preocupação, justamente para incentivar e acrescer os segundos, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou em 2010 a primeira política global para o envelhecimento no meio urbano – baseada em uma lista de verificação de espaços exteriores e edifícios, transportes públicos, habitação, participação social, respeito e inclusão social, participação cívica e emprego, comunicação e informação, serviços de apoio comunitário e de saúde – ou seja, uma espécie de promoção para criação de cidades mais amigas dos idosos.

Como um guia ou farol dessa rede internacional de cidades Manchester encabeça ações para melhorar a qualidade de vida dessa parcela da população, embora se mantenha como um local jovem e vibrante. Ao contrário do que se pode imaginar, o nível de envelhecimento da sua população (9,5% acima de 65 anos) está muito abaixo da média nacional (17,4%), da europeia (18,4%) ou da portuguesa (19,6%), mas o elevado grau de exclusão dos idosos em função do declínio econômico nos anos 1970/80 fez com que a câmara olhasse de outra maneira os prateados, buscando torná-la um ótimo lugar para envelhecer.

Há 15 anos na Câmara Municipal da cidade inglesa, Paul McGarry busca desmitificar a imagem do velho como dependente, partindo da adoção do conceito de cidadão ativo ou potencialmente ativo – teoria essa de envelhecimento ativo que emergiu nos Estados Unidos na década de 1960 e chegou à Europa via OMS, que em 2002 emitiu uma orientação baseada em três pilares: participação, segurança e saúde.

Sem fechar os olhos, ele não nega que o envelhecimento aumenta a probabilidade de doença, isolamento, dependência, estigma, mas afirma que compete a todos minimizar os seus riscos. No lugar de alimentar ressentimento por aqueles vivem até mais tarde faz-se necessário buscar alternativas para que eles sejam saudáveis, ativos e independentes.

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Mas quais alternativas são essas?

O pilar central de toda e qualquer mudança na cidade de Manchester baseia-se na valorização dos conhecimentos e das experiências dos mais velhos e da sua capacidade de consumir, de investir, de gerar emprego, de estimular a economia, por isso, e não apenas para manter os seus idosos como atrair outros, o passo inicial aconteceu ainda em 2003 quando foi lançado um programa de valorização dos prateados, através de ações capazes de deflagrarem o seu direito de reclamar a cidade e usá-la.

Com forte apoio dos trabalhos produzidos pelo Instituto de Investigação Colaborativa sobre Envelhecimento da Universidade de Manchester, liderado pelo sociólogo Chris Phillipson, o governo firmou parceria com idosos, organizações de idosos, organizações comunitárias, grupos de voluntários, governo central e universidades para desafiar os rótulos que acompanhavam aos mais velhos. Em pouco tempo as ruas foram tomadas por cartazes enormes com imagens de pessoas nessa faixa etária em situações banais: um grupo de mulheres prontas para uma partida de baquete, um casal heterossexual em uma cena erótica, um casal homossexual passeando de braços dados.

Para McGarry, mudar as percepções sociais deve ser uma prioridade de qualquer cidade que queira tornar-se “amiga dos idosos”. O contexto ajuda a realizá-lo: os chamados “Baby boomers”, que nasceram no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, possuem mais educação, mais poder de compra, mais capacidade de organização, mais consciência de direitos do que a geração anterior. E é neste desabrochar da “economia grisalha” (leia mais sobre economia grisalha aqui) que a cidade busca desenvolver-se.

Ter criado uma narrativa que faz sentido, que rompe com paradigmas e na qual as pessoas possam identificar-se é uma das lições para se tirar da estratégia adotada pela cidade, segundo Tine Buffel, da Universidade de Manchester. Isso e ter apoio político, liderança, parceria alargada, efetivo envolvimento de idosos. Ela própria fez de idosos co-investigadores para tornar três bairros mais “age-friendly”.

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Old Moat, um modelo idoso

Em Old Moat, um bairro com ruas largas, bem pavimentadas e casas de um lado e de outro com grandes quintais – um dos locais mais envelhecidos de Manchester, já que quase metade de seus moradores ultrapassaram os 65 anos – o sossego, a abundância de árvores, a disponibilidade de transportes públicos e a proximidade do centro são fatores bastante atrativos.

Para torná-lo ainda mais adequado aos idosos e um modelo replicável a outros bairros, os profissionais da Escola de Arquitetura da Universidade de Manchester produziram um relatório com 114 recomendações, algumas delas muito simples como a colocação de bancos no caminho entre as residências e o pequeno centro comercial para que os prateados pudessem descansar. Medida que Derek, morador do local, agradeceu mil vezes já que as pausas no trajeto são importantes para conseguir realizá-lo. “Quando vou às compras e trago leite, batatas ou açúcar, qualquer coisa mais pesada, é uma luta. Quando saio da loja não há problema, mas quando estou no meio do caminho… Ai tenho que usar aqueles bancos…. Nunca me passou pela cabeça que teria que fazer uma coisa dessas. Agora estou contente por terem colocado eles ali”, relata o senhor de 88 anos. O projeto para o bairro prevê ainda uma mudança no desenho das próprias ruas com a instalação de sinalizações maiores, com diferentes cores a fim de que as pessoas com demência possam orientar-se melhor.

Para envolver a comunidade o modelo de política adotado foi o de autarquia, uma espécie de governo exercido pelos próprios cidadãos, na medida em que esses prateados intermediários, chamados de campeões, como o próprio Derek, são convocados a cada dois meses para conversar sobre que já está feito e o que ainda o será, o que está dando resultado e o que possa ter dado errado. O objetivo é que essas pessoas conheçam bem a vizinhança. Saiam de casa todos os dias, andem a pé, de metro, de carro, de transporte público para que possam de fato acrescentar com sugestões úteis para o dia a dia.

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Uma preocupação de todos

De acordo com John Hannen, responsável pelo departamento de Investigação e Política do Centro de Organizações Voluntárias da Grande Manchester, o que está mudando na cidade é muito mais do que aquilo “fotografável”, porque está acontecendo dentro da cabeça de seus indivíduos: “Tem a ver com passar poder às pessoas, ouvi-las, tratá-las com respeito.” Segundo ele não é preciso fazer muito, como em algumas lojas de Old Moat que possuem um selo de qualidade indicando que são “age-friendly”, já que disponibilizam locais para que as pessoas possam sentar-se e esperar, oferecem um copo d’água e um banheiro. “Quanto é que isso custa? Custa alguém preocupar-se”, acrescenta.

Em paralelo às melhorias já alcançadas, a Câmara não para de desafiar pessoas, grupos ou organizações a apresentarem ideias – grandes ou pequenas – para tornar a cidade mais amiga desses moradores. Um Comitê de Idosos reúne-se a cada seis semanas para desenhar planos e políticas públicas, há idosos sentados em todos os grupos de trabalho criados para desenvolver a estratégia “Manchester amiga dos idosos”, um fórum reúne-se duas vezes por ano para debater problemas e soluções com os “decisores” políticos e há cerca de 140 “campeões” como Derek, isto é, senhores e senhoras que funcionam como intermediários entre as comunidades e as entidades culturais.

As conquistas realizadas até o momento, como não pagar taxas moderadoras em consultas médicas de urgência ou de rotina, em intervenções cirúrgicas, internamentos ou medicamentos, o subsídio concedido no inverno para as despesas com o aumento nas contas de gás ou de eletricidade, as gratuidades em quase todos os transportes públicos – dotados de pisos rebaixados, rampas, espaço para cadeiras de rodas e motoristas formados para prestar atenção em idosos ou pessoas com mobilidade reduzida – a entrada livre em museus, galerias bibliotecas, entre outros, são indiscutivelmente um grande avanço, mas a cidade ainda tem muito que melhorar. Segundo Derek, “ainda há lugares perigosos para atravessar a rua, quase não existem sanitários públicos e é necessário também colocarem mais bancos nas ruas para que se possa descansar e recuperar as forças.”

O lado positivo de todas essas alterações colocadas em andamento é a possibilidade de que cidades estruturadas para pessoas jovens, em idade ativa, sejam agora pensadas e planejadas também pelos mais velhos. Após a crise de 2009, as prioridades tornaram-se o crescimento econômico, a reforma dos serviços públicos, a integração dos serviços sociais e de saúde e a requalificação dos bairros – que acontecem sob uma ótica “age-friendly”.

Motivo de orgulho, a filosofia da cidade está ainda em plena expansão com um “Hub do Envelhecimento da Grande Manchester”, que envolve a saúde, os transportes púbicos e outros setores estratégicos, visando incentivar comunidades e ambientes a tornarem-se amigos dos idosos, além de ajudar quem tem demência a manter-se na sociedade e a controlar a sua vida até mais tarde.

“O envelhecimento é quase tudo”, diz John Hannen, que representa o Centro de Organizações Voluntárias Grande Manchester no Hub. “Não importa só quem é velho agora. Mas também quem vai ser velho dentro de 10, 15, 20 anos. Quais serviços públicos teremos daqui a 10, 15, 20 anos?”. Em suas palavras, “ainda há muito para se mudar na cabeça dos britânicos (acrescentamos, do mundo) e o principal é a ideia de que para um grande problema deve haver uma grande solução. Manchester é um exemplo inverso disso”.

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Fotos: Nelson Garrido

Fonte: https://www.publico.pt/mundo/noticia/ha-uma-cidade-que-quer-muito-ser-um-optimo-sitio-para-envelhecer-1706730

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Por | 2017-07-25T09:26:16+00:00 04/04/2017|4 Comentários

4 Comentários

  1. […] no projeto “Cidade Amiga do Idoso” (falamos sobre o caso de Manchester, no Reino Unido, aqui): ambiente físico, transporte, moradia, oportunidades para participação, respeito e inclusão […]

  2. Ana Adelaide Peixoto 04/05/2017 em 08:11 - Responder

    Ai como é bom saber que em algum lugar desse mundo o assunto da velhice, longevidade, vida inteligente na velhice, aconchego, coletividade, é pensado! Estamos há anos luz desse pensamente. O Brasil é um país jovem, era pelo menos, e a Velhice como um estágio vivo e dinâmico ainda está longe. Aqui no Nordeste então, os velhos estão em casa, sendo cuidados ou maltratados, à espera do fim. Uma tristeza! Mas uma alegria esse Mundo Prateado. Quero ir embora para Manchester, que não é By the Sea! Parabéns pela matéria!

    • Luiza Morena 04/05/2017 em 09:06 - Responder

      Olá Ana, tudo bem? É incrível como ainda estamos distantes de uma realidade como a de Manchester, em que os idosos estão incluídos na sociedade e à frente na tomada de decisões que dizem respeito a sua própria vida e ao lugar onde moram. Nosso objetivo é compartilhar cada vez mais conteúdos sobre a velhice mundo afora. Ficamos felizes que esteja acompanhando e gostando!

  3. Lúcia Maria Vasconcelos Lopes 05/05/2017 em 10:00 - Responder

    Olá Ana. Como vai? Quem sabe no Brasil possamos fazer algo semelhante? Já começamos bem com este blog…Talvez, e aí vai uma sugestão, possamos trocar informações sobre o que temos em nossas comunidades na facilitação da vida dos prateados em cada região deste nosso país. Grande abraço.
    Lúcia.

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