O Fim do Primeiro Tempo

Maristela Velloso

Há quem diga que já está esgotado meu tempo de escrever sobre o processo de desligamento da empresa onde trabalhei pelas últimas 3 décadas e que daqui a pouco não terei nem mais lembrança dos sentimentos. Pode ser verdade, mas o tempo melhora até a maneira como nos expressamos. Algumas coisas esqueci, outras lembrei, outras descobri.

Depois de ter decidido a entrar com o pé no fim daquela extensa relação (apenas como forma de preservar a auto-estima) e ver amigos contribuírem inesperadamente com o traseiro, concluí que refletir um pouco sobre essa fase da vida poderia ser também uma forma de ajudar outras pessoas, além de fazer as pazes com o papel de quem passou para o lado de fora da festa.

Sim, porque apesar de descobrir muito rápido que o ofício na TV tem pouco de festivo, a verdade é que a família, amigos e vizinhos de um radialista podem jurar que ele sai de casa todo dia para saracutear num ambiente de puro glamour. Não estão de todo enganados.

O trabalho do produtor de dramaturgia, como fui, é principalmente integrar uma enorme equipe, azeitar a engrenagem que inclui todas as áreas criativas; lidar diretamente com o autor, a emoção do texto, o talento dos atores, a conceituação da direção, a caracterização dos personagens, a criação dos figurinos, cenários e ambientes, das trilhas musicais, dos efeitos especiais e visuais…é indescritível a emoção de ver palavras virarem imagens a partir dessa dinâmica, principalmente por profissionais tão focados em realização com qualidade.

Mas, que fique bem claro: trabalhar em televisão e, especialmente, fazer produção, é estiva pesada, de onze, doze horas por dia, com muito stress e cansaço e, invariavelmente, fome, choro e frustração. Ofício com ossos duros.

Como eu me sentia no trabalho

Voltando ao que interessa, havia, no entanto, um envolvimento emocional tão intenso com as histórias e pessoas que, desde quando comecei a ter vontade de parar de trabalhar ali, mantive o coração e a mente preparados para os altos e baixos da decisão. E posso assegurar que essa é a primeira medida para quem resolve dar uma guinada na vida e largar bom emprego e bom salário, ainda que, como disse acima, a possibilidade de demissão já esteja próxima.

Quando você começa a ter certeza de que os aborrecimentos do cotidiano estão sorrateiramente te adoecendo, recomendo sair na frente, em defesa da sua integridade física e emocional.

Porque é impressionante como pode ser perversa e danosa a metodologia usada pelas empresas no processo de renovação de quadro. Nada contra os mais velhos se despedirem e abrirem espaço para os jovens talentos; nenhuma objeção ao valor do oxigênio saudável que as novas gerações trazem para a inovação das empresas. Mas os estudiosos e especialistas em recursos humanos deveriam rever as abordagens e ajudar as corporações a lidarem respeitosamente com os times que passam décadas vestindo a camisa e fazendo gol atrás de gol, e num dado momento se tornam elegíveis à aposentadoria.

Reconheço que há muitos profissionais que se negam a parar de trabalhar quando já não estão mais contribuindo efetivamente para o bom andamento dos processos, e que é da vida participar da construção de uma organização e com o passar de longos anos sair de cena. Mas repito: cabe às lideranças cuidar com carinho dos colaboradores e não empurrá-los porta afora quando não forem mais úteis ou adequados. Como também não é humano lançar mão de planos de aposentadoria incentivada, que de um dia para o outro tratam pessoas até então essenciais para o resultado, como se fossem números de matrícula.

Tive a oportunidade de acompanhar experiências que me ajudaram bastante a preparar o espírito para essa transição, mas fui especialmente influenciada por três (contra) exemplos: um Diretor muito poderoso e adorado por mais de quarenta anos, que caiu em absoluto ostracismo quando afastado do cargo. Uma companheira de função, que atuou 32 anos e foi impedida de entrar nas dependências da empresa para apanhar seus pertences, porque essa era a regra do então RH (por acaso, o departamento tinha o apelido de “erro agá”).

E, num segmento profissional diferente do meu, testemunhei o impacto do plano de aposentadoria incentivada de um Banco, divulgado no fim do ano, às vésperas do período mais crítico do cumprimento de metas de um gerente geral. Extremamente envolvido com a performance de sua agência, ele se viu encaixado no perfil do Programa, em idade e tempo de serviço, e em exíguas duas semanas teve que decidir se saía ou não da empresa onde estava há 34 anos.

Meu Deus! Empresas investem tanto em fidelizar clientes, melhorar processos e maximizar resultados; poderiam ver valor em preservar a saúde emocional dos funcionários que se despedem de suas fileiras depois de décadas de dedicação. Todos os valores de respeito à pessoa e aquela patética falácia com que as empresas ambientam seus novos funcionários, acabam sumariamente enterrados na hora da despedida dos veteranos.

Mas, voltando ao foco da conversa, advirto especialmente minha geração pós 50 a se preparar.

As empresas ainda não estão alinhadas com a nova régua da Previdência. Conviveremos com um gap entre a faixa etária dessa força de trabalho supostamente ultrapassada e as idades mínimas propostas pela reforma em andamento. É possível que daqui a alguns anos os valores do mercado de trabalho se ajustem à política que está por vir, mas enquanto isso não acontecer, haverá uma geração de transição com a incumbência de repensar e auto prover um segundo tempo de empregabilidade, para ter como sobreviver por anos sem fonte de renda, até que consiga se aposentar.

É a geração que não suporta o bullying e pede para sair ou é demitida, porque está velha, mas também não consegue se aposentar, porque ainda é jovem. A mesma geração que tem a expectativa de vida estendida e provavelmente ainda terá que cuidar de pais, mães, irmãos, amigos ou parentes longevos. Um cenário que indica a necessidade de reinvenção e muita coragem. Teremos que realmente trazer à memória ensinamentos milenares: crise = risco + oportunidade.

Situações que causam apreensão normalmente se revelam como grandes marcos de vitória. Contratempos, adversidades e problemas geram dor e sofrimento, mas resultam em crescimento. Na linguagem poética, é a oposição do vento que faz a pipa voar.

BOLSO, CABEÇA E CORAÇÃO

Nem todo mundo pode falar em se planejar financeiramente para sair de um bom emprego, muito menos lançar mão de aconselhamento terapêutico para ajudar na tomada de decisão. Mas dentro da realidade de cada um, é possível, sim, incluir as duas ações na nova pauta, ainda que signifique apenas reduzir os gastos do dia a dia e começar a conversar sobre o assunto com pessoas ajuizadas.

Dá ódio quando o salário acaba no meio do mês e aconselham poupança, mas gastar menos é uma regra alcançável, até para quem tem que optar entre o cinema ou a pracinha. Sair de carro, gastar gasolina e pagar estacionamento; pegar táxi ou BRT e Metrô? Sim, é hora de fazer pequenas contas. Tal qual preparar a cabeça e o coração para um momento difícil, o que se pode conseguir pagando profissionais ou pedindo ajuda de graça, abrindo o coração para amigos, parentes, irmãos na fé, padres, pastores, gurus…

É claro que sinto falta dos momentos prazerosos…

O meu tempo de maturação da ideia de sair de uma empresa nacionalmente admirada e abrir mão de um salário muito bom foi de quase três anos. O que não significa que estava completamente pronta quando aconteceu. Apenas já tinha me debruçado consideravelmente sobre o tema e não tinha medo quando me imaginava com saudades, arrependimentos, nostalgias.

Assim como quem ganha pouco não quer ouvir falar em poupança, é irritante quando alguém me pergunta se eu sinto falta do trabalho. Óbvio que eu gostava de tudo o que era positivo e prazeroso na minha rotina de produtora. Natural que antes de começar a ter uma nova renda eu sinta uma certa saudade do pagamento no final do mês. Mas o salário, que era bom, estava me custando caríssimo. A vida é feita de escolhas. A morte por doença pode ser consequência de más escolhas também.

ILUSÕES DE MUDANÇAS

Nos 32 anos em que estive trabalhando em TV sempre pensei e fiz todo mundo em volta acreditar que minha vida era bagunçada porque eu não tinha tempo. E alimentava a esperança de que no dia em que não tivesse que passar no mínimo onze horas no trabalho, tudo se arrumaria. Ledo engano. Pode ser que em breve eu comece a colocar o pezinho na posição de uma mulher organizada mas, um ano depois, está tudo quase tão bagunçado quanto antes. De costureiras a consultas médicas.

Ano passado fiz, mais uma vez, a bizarrice de ir a dois médicos diferentes com pouquíssimo intervalo, tendo que decidir entre papelotes e cápsulas com a mesma validade, para no final não tomar nada e jogar tudo no lixo. Pago o recibo da confissão para asseverar um auto-sacode! Dá para ser auto indulgente e empurrar com a barriga o sonho de colocar as fotos da vida inteira em ordem, mas, com o fim do primeiro tempo da vida profissional e a decisão de encarar uma nova empreitada, encerrou-se a temporada de loucuras perdulárias!

JOGO DO CONTENTE

Entrando com o pé ou com o traseiro, estar fora de um empresa onde se viveu intensamente descobertas, conquistas e até derrotas é um processo que nunca vai ser desacompanhado de sobressaltos emocionais. Um dia tudo bem, um dia tudo mal. Quem deu o sangue e o suor num trabalho que amava, nunca vai encarar um desligamento como um boleto pago. Nessas horas em que a empresa parece um casamento terminado e o chefe que te espezinhou ganha a fisionomia de marido ou esposa que não soube dar valor, adote um método infalível!

Coloque-se no lugar de outros ex-funcionários, que, ao contrário de você, fizeram parte do nascimento da empresa e foram igualmente descartadas. imagine a dor de quem foi muito mais importante e um dia foi afastado também. Você sai do papel de protagonista – a grande vítima! -, e, usando uma linguagem familiar aos coleguinhas do ramo, começa a achar excelente ser só um figurante. Se aceita bem no papel de “o afortunado sem fala” e vai aos poucos inventando um perfil novo para essa nova e instigante fase da vida sem script.

SEM MEDO DE NÃO SER FELIZ

Depressão é doença e tristeza é estado de ânimo mas, do ponto de vista do que estamos tratando aqui, podemos dizer que ambas podem facilmente acometer homens e mulheres que tiveram experiências dolorosas e frustrantes relacionadas ao fim de uma carreira. Pessoas que saíram de empresas por vontade própria ou não, que estão repensando a vida profissional e possivelmente podem estar combinando a experiência de buscar novas perspectivas de trabalho com uma guinada pessoal, afetiva ou conjugal.

É espantoso, no sentido mais ambivalente da palavra, a quantidade de prateados chegando hoje às idades que não são nem melhores nem piores, com a vida dando surpreendentes cambalhotas. Documentários, seriados, blogs e entidades diversas que compõem o cenário do debate sobre a longevidade dão conta de inúmeras histórias e fantásticos depoimentos de pessoas comuns e personalidades que são verdadeiros ícones do envelhecimento ativo. Mas, nem por isso, está decretada a morte da crise da meia idade. Não desaparecerão de um dia pro outro as preocupações do profissional veterano com sua reinserção no mercado de trabalho, ainda mais num país como o nosso, com tantos jovens desempregados. É nessa hora que devemos evitar armadilhas que podem levar ao estado depressivo.

Nada afasta tanto uma pessoa da realidade do que pensar que pode viver uma experiência de dor sem sofrimento. O sofrimento é um gatilho que pode nos fazer ver a vida de outro ângulo e aí, sim, renovar nossa perspectiva. Pessoas maduras e experientes tendem a subestimar conselhos, mas um adulto em recomeço de caminhada deve ter a humildade da criança que aprende a dar os primeiros passos.

Vale ser menos rabugento com as pollyannas pregações das redes sociais, ficar perto de pessoas confiáveis, ser otimista, não se comparar aos “amiguinhos” que, porventura, também estejam engatinhando, e, se cair, passar merthiolate no joelho ralado, ou seja, lançar mão dos avanços da Medicina. Fracos ou fortes, jovens ou velhos, famosos ou anônimos, quando preciso, devem procurar ajuda médica, tomar medicamentos pelo tempo necessário e seguir em frente de cabeça erguida.

A PRESSA É SEMPRE INIMIGA

Com a expectativa de vida média em torno de 75 anos, muito poucas pessoas no Brasil param de trabalhar com economias suficientes para não pensar mais em fazer dinheiro. Mais cedo ou mais tarde vai ser preciso incluir a busca por um novo emprego, projetos ou empreendimentos na agenda. Dependendo da situação, o mais indicado é tirar um período sabático – embora eu mesma não tenha seguido esse roteiro – e, depois, ir à luta. É muito importante deixar o tempo se encarregar de algumas curas.

Quando comecei a fazer terapia para tratar do desejo de pedir para ser demitida, iniciei também uma listinha de desejos num bloco de notas, onde fui colocando tudo o que tinha de lembrança de sonhos e idéias de Negócio. Curiosamente, um dia as anotações sumiram. A princípio fiquei muito chateada. Depois me convenci de que era bom começar do zero, sem a referência do tempo em que eu apenas ansiava por liberdade. A listinha ficou menor e mais real. Assumi que andei correndo demais atrás do prejuízo de um Negócio que criei também um pouco apressadamente.

Enfim, importante dizer que, neste mundo atual de metas e planejamentos estratégicos, é fácil se deixar levar pela correria e querer ser o que não é e fazer o que não sabe. Pior, subestimar o que somos e sabemos, apenas por não nos prover o tempo necessário para reconstruir nossa auto estima. Pode ser mais grave ainda quando sequer nos damos a chance de descobrir habilidades e talentos adormecidos. Sonhar com rumos novos e inimagináveis. É fundamental reconstruir um sistema de crenças sobre si mesmo após uma “derrota”.

Conclua seriamente: se você abandonou ou foi abandonado pelo mundo corporativo porque não aguentou a pressão, vai conseguir suportar o império da síndrome de eficiência que começa sutilmente a castigar essa geração 50, 60+, reentrante no mercado de trabalho?
Você não se encontra em condições de correr uma maratona agora.

A propósito, sugiro a leitura de “A Sutil Arte de Ligar o F*da-se”, de Mark Manson, e o ingresso na prática da meditação Vipassana, que quer dizer “ver as coisas como realmente são”. A meditação é um hábito que serve para erradicar as impurezas mentais e visa a felicidade suprema da libertação completa. Combinando a um atento estudo do Sermão do Monte*, você terá um suplemento poderoso para voltar à forma. Não vai ter pra ninguém!

*Evangelho de Mateus, Cap. de 5 a 7.

Por | 2018-01-19T09:18:54+00:00 19/01/2018|0 Comentários

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