Relacionamento e sexualidade são sinônimos de longevidade?

namoro acima dos 50 anos

Texto Luiza Morena

O assunto deveria ser abordado com mais frequência, mas ainda há pensamentos e paradigmas a serem questionados – na sociedade, mas também em nós mesmos. Por isso, essa matéria é um convite à reflexão. Ou de acordo com o psicólogo clínico José Raimundo Gomes podemos encarar o próprio “tabu” como convite: “é ele que nos instiga, queremos quebrá-lo, investigar a sua natureza”.

Reunir duas bagagens de vida, não tão leves quanto na juventude, pode soar como algo assustador para quem já passou dos 50 anos. Mas encarar os novos relacionamentos amorosos com leveza e menos pretensão é o que tem feito com que a escolha dos prateados seja, cada vez mais, não envelhecerem sozinhos.

Com o aumento da longevidade e os avanços na sociedade, muito já se fez para romper o imaginário da velhice solitária, inativa e sem sexualidade. Afinal, se a sexualidade nasce e morre com o ser humano é verdade que há uma idade para começar a fazer sexo, mas não para parar de fazê-lo.  É o que afirma Guita Grin Debert, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora do estudo “Velhice, violência e sexualidade”: “Trabalhos de várias áreas comprovaram que a sexualidade não se esgota com o passar dos anos. É indiscutível o declínio da frequência das relações sexuais, mas emerge, por outro lado, a percepção de que a qualidade dessas relações pode aumentar”. Sua pesquisa aponta que nessa faixa etária os encontros podem ser mais livres e afetuosos. Além disso, os papéis tradicionais de gênero tendem a se inverter. “As mulheres passam a ser menos recatadas e os homens, mais carinhosos. Nas sensações também há mudanças. O prazer estaria espalhado pelo corpo, ocorrendo um processo de desgenitalização”, explica.

A redescoberta do amor e a ressignificação da relação com o corpo, contudo, independem de casamento e cada vez mais é possível encontrá-las em novas configurações de relacionamento, como afirma o psicólogo clínico e analista junguiano José Raimundo Gomes. Seja em um namoro, em um reencontro antigo ou no despertar pós-viuvez, não importa, é preciso de uma vez por todas quebrar os tabus de que não há sexualidade na velhice ou de que ela depende, exclusivamente, do matrimônio. “O que define a sexualidade não é a idade que você tem. Se tem 18, 30, 50 ou 70 anos. É a sua quantidade de vida, de alegria e, o que é fundamental, a capacidade de sentir curiosidade por si mesmo através do outro”, afirma o psicólogo.

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Sexo mais maduro. Será?

No filme “O amor nos tempos do Cólera”, adaptação do livro homônimo de Gabriel García Marques, uma de suas cenas finais traz a atriz Fernanda Montenegro, que vive o papel da octagenária Fermina Daza, tirando a sua roupa aos poucos para se preparar para dormir pela primeira vez com o também octagenário Florentino Ariza, namorado que abandonara na juventude. Apesar de todas as críticas ao filme, a cena também nos despe e nos coloca diante da realidade de muitos homens e mulheres, que encontram na maturidade novas e particulares formas de relacionamento amoroso e sexual.

Embora na sociedade contemporânea ainda sobreviva uma concepção de velhice assexuada, fruto de um culto exacerbado da juventude, essa visão é colocada em cheque quando resultados como o de uma pesquisa publicada pela AARP Magazine nos Estados Unidos, feita com pessoas de 40 a 69 anos, aponta para números como: 63% atualmente namorando, 13% interessados em namorar e 14% esperando encontrar o parceiro perfeito. Do total, apenas 9% mencionaram não ter interesse em um relacionamento amoroso. Ou no caso da última pesquisa realizada pelo Pro-Sex (Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade São Paulo), que contou com mais de 8 mil entrevistados, tendo 87,1% dos homens acima de 61 anos afirmando-se como sexualmente ativos.

Muito além do sexo, por sua vez, a sexualidade abraça também o interesse pelo outro, o carinho e a vontade de estar junto, o que de acordo com José Raimundo pode ser expresso metaforicamente como a máxima elevação de nossas aspirações por encontros. “Costumo dizer que somos seres irresistíveis uns para os outros e essa irresistibilidade está no nosso DNA natural. Temos fome uns dos outros e essa antropofagia amorosa revitaliza nossa força vital e confere alegria à vida. E essa alegria será tanto mais intensa quanto maior for a nossa capacidade de sexualmente amar como desejo erótico, mas também como metáfora de carinho e de cuidado”. Ao ser questionado sobre a maturidade, José provoca: “ela é o conhecimento do real e a adesão consciente à fantasia.”

Para aqueles que não vivem a vida conjugal – ou aos abertos às fantasias – os avanços tecnológicos trouxeram consigo novas possibilidades de se conhecer pessoas e promover encontros sejam através de comunidades e páginas no Facebook ou em sites de relacionamento como o Coroa Metade, que tem mais de 223 mil cadastros. Uma pesquisa realizada com seus usuários, todos a partir dos 40 anos, revelou que a maioria dos homens e mulheres se mudaria de cidade e até mesmo de estado para se casar e que ambos se relacionariam com pessoas mais jovens – boa parte aceitando uma diferença de até 20 anos.

Os números relatados pela pesquisa, embora sem fins antropológicos, comprovam o que muito tem se falado sobre a mudança de paradigma do envelhecimento, reafirmado pela Organização Mundial da Saúde, OMS, com preceitos para um envelhecimento ativo. Cada vez mais, a velhice sai do imaginário negativo de um prenúncio do fim para ganhar contornos de autonomia, nos quais os autores dessa segunda metade de vida podem definir com liberdade quais caminhos seguir e como o desejam fazê-lo. Liberdade essa que José Raimundo credita justamente ao passar dos anos: “Uma descoberta fundamental que a maturidade nos traz é a de que somos livres. Podemos até viver em uma sociedade reprimida e repressora, mas a mente não conhece prisões externas. Somos livres para desejar”.

O “like”da felicidade é seu para você mesmo

Os resultados divulgados recentemente por uma pesquisa realizada pelo Channel 4, da Grã-Bretanha, apontam que 51% das pessoas acima de 60 anos no país continua sexualmente ativa, mas que desse grupo 64% não costuma procurar conselhos sobre saúde sexual. E não são apenas os problemas biológicos ou as possíveis doenças ocasionadas pelo envelhecimento que entram nessa questão. Os números trazem expressos consigo certa necessidade de se falar mais sobre a sexualidade, de se buscar informações e compreensões, especialmente para aqueles que vivenciam no envelhecimento uma mudança negativa no que diz respeito às suas relações. “Embora existam sim alterações fisiológicas, não advém delas a maior barreia a ser quebrada. O corpo se harmoniza com a idade cronológica e continua sensível aos estímulos bons que o alcançam. Mas é necessário estarmos “bioemocionalmente” equilibrados para respondermos com lascívia aos devaneios eróticos naturais que passeiam por nossas mentes”, comenta José Raimundo.

E se o relógio da vida nunca para de trabalhar, o psicólogo descarta a terapia conservadora da porta de seu consultório para dentro. O seu lugar é na praticidade e conta que é dessa maneira que já viu muitos “milagres” acontecerem. Quando o assunto em questão é a sexualidade a sua abordagem não é diferente: “Supomos conhecer bem as defesas que nos protegem de falar sobre o que é preciso falar. Prefiro estimular as leituras, a vida social e as relações”.

A sexóloga e psiquiatra Carmita Abdo, que coordenou em 2008 o Mosaico Brasil, um amplo estudo sobre a sexualidade dos brasileiros, realizado pelo Pro-Sex, afirma que os resultados da pesquisa mostraram que “a chegada da menopausa na mulher, com o fim da produção de hormônios, causa um grande impacto físico e psicológico, em especial num país que cultua tanto a beleza e a jovialidade. Já entre os homens, a fertilidade se mantém, mas, a partir da quinta década de vida, aumenta a incidência de problemas de saúde que comprometem a potência sexual.”. Ainda de acordo com os dados coletados, contudo, essas alterações não são as grandes vilãs das relações, especialmente após os avanços científicos na medicina e o surgimento de remédios que estimulam e prolongam a vida sexualmente ativa.

No que diz respeito ao desejo, por sua vez, a sexóloga reafirma através de sua pesquisa a ideia trazida pelo Dr. José Raimundo: ele independe de idade. Intimamente relacionado ao desejo pela vida, o tesão sexual não deixa de existir única e exclusivamente em função de uma passagem cronológica de tempo, “o que existe, na realidade, são pessoas que introjetam medo, frustração excessiva, ressentimento e o que é pior culpa em suas relações e o resultado disso tudo é sentir-se inibido e inorgástico. Para mim, a barreira que deve ser quebrada é aquela do preconceito, fortemente derivado de um sistema de crenças essencialmente ligadas a uma moral sexual de cunho religioso ou neurótico”, explicita o psicólogo.

namoro na terceira idade

Vida longa com amor

Maria Lucia e Geraldo se conheceram na Pontifícia Universidade Católica, a PUC Rio, em meio a uma sala lotada de alunos de engenharia e se casaram. O intervalo de tempo entre uma coisa e outra? Quarenta e seis anos e duas vidas inteiras. Logo após a formatura, ela se casou e viveu durante 13 anos com o primeiro marido. Do relacionamento nasceram suas três filhas. O seu segundo casamento, de 23 anos, terminou em 2009. Geraldo também teve dois casamentos longos e duas filhas.

Cada vez mais comuns, as novas configurações familiares e de relacionamento nos fazem encarar histórias como essa de encontro tardio com uma naturalidade bem-vinda. A Maria Lucia e o Geraldo se reencontraram em 2011 e optaram por se casarem pela terceira vez, aos seus 64 anos, em 2014. “Entendemos que nosso casamento em uma idade pouco comum possa ser um exemplo de que a vida está sempre recomeçando”. Em seu discurso, a noiva cita um “recomeço”, prova de que a visão sobre o envelhecimento e a velhice está, de fato, mudando.

De acordo com um estudo de geriatria feito nos Estados Unidos, por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, os idosos podem sentir tanto afeto e emoção durante o despertar de um romance quanto os jovens. No entanto, são as experiências passadas que determinam se a relação será positiva ou negativa. O envelhecimento compromete a parcela do sistema nervoso que controla a excitação, mas não altera tanto o comportamento e a forma com a qual os mais velhos experimentam a emoção. Por isso, viver um caso de amor é benéfico em qualquer etapa da vida, quando esse lhe garante prazer e bem-estar.

Para José Raimundo, assuntos como sexo e relacionamento na velhice estão longe de serem os únicos tabus de uma sociedade que ainda não sabe lidar com as diversas etapas da vida humana: “Cabe a nós não usarmos essas dificuldades sociais para produzir acomodações. Pelo contrário: devemos contribuir para a mudança social através de nossas ações. Por isso, seja o protagonista dos seus desejos. Olhe para dentro. Parece bom quebrar os nossos próprios tabus de tempos em tempos. E não há idade para fazer isso”.

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Por | 2017-07-18T14:18:21+00:00 14/07/2017|6 Comentários

6 Comentários

  1. Quero encontrar uma pessoa com.os mesmos objetivos que o meu.
    Que ter um companheiro para dividir e curtir juntos a vida.
    Que seja um homem de caráter e de uma palavra só.

  2. Sou uma pessoa tranquila, com Espírito jovem, que sonha encontrar alguém da minha idade ou mais velho, para uma vida a dois.

    • Luiza Morena 31/07/2017 em 10:35 - Responder

      Olá Sueli, ficamos felizes em ler isso! Somos 100% a favor de que ninguém envelheça sozinho.

      Um abraço,

      Luiza

  3. Olá Luiza!!! Bom dia!!! Acabo de ler seu artigo “Relacionamento e sexualidade são sinônimos de longevidade?” Bela matéria!!! Adorei!! Parabéns!
    Fico muito orgulhoso de ver o MUNDO PRATEADO florescendo, cada vez mais e sempre!!! Me orgulha muito constar da “galeria” dos COLABORADORES do site!!! Desde que participei com uma breve Oficina – “Resignificando a Aposentadoria”-, ainda em 2015, quando do lançamento do site, muita água “correu por baixo da ponte” do meu Viver. Na ocasião, a referida Oficina era apenas um “ensaio”, numa versão completamente “beta”, num período de grande turbulência em minha vida, numa tentativa quase “desesperada” de re-aprendizagem, aprendendo a me re-inventar a cada dia, à medida em que mergulhava cada vez mais no (hoje fascinante) Mundo Prateado.

    Hoje, praticamente dois anos depois daquele ensaio de Oficina, posso dizer que tenho uma nova história para contar: (i) passei por uma delicada, impactante mas exitosa cirurgia cardíaca; (ii) co-criei e desenvolvi uma nova e fascinante experiência de Coaching-a-Bordo (CaB) – https://www.facebook.com/labdeconversas/?fref=ts -, à qual tenho adaptado para servir a diferentes públicos – desde jovens buscadores em início de carreira,, até prateados na faixa dos 50+ (e 60+) – todos em busca por encontrar-se na Vida, em busca de um sentido que lhes permita (na verdade, nos permita, uma vez que também “estou nessa”) reinventarem-se e fluirem com mais leveza, realização e alegria em sua respectivas fases de Vida!!!

    Quero contar essa história no Mundo Prateado!!! E quero estimular assinantes do site a participarem dessa experiência de um Coaching a Bordo no Rio de Janeiro (CaB-Rio 2017). Recentemente, fiz uma “proposta” para minha desde sempre querida amiga Marta Pessoa (que, espero, veja este Comentário) nesse sentido!!! O Convite para uma conversa está posto e agora compartilho com você Luiza!!! Estou levando meus “tripulantes-prateados” do CaB para conhecer e frequentar esse belo e florescente espacó de convivência em que está se tornando o mundoprateado.com !!! Nos falamos?!!!

    • Luiza Morena 01/10/2017 em 19:36 - Responder

      Olá Gentil, fico feliz que continue nos acompanhando e que esteja gostando do conteúdo! Esse feedback é muito importante. Repassei para a Marta e a Maristela o seu contato. Nos falamos sim, claro!

      Uma boa semana,

      Luiza

  4. Lúcia 07/09/2017 em 10:58 - Responder

    Achei genial.Nada de envelhecer “solito”.

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