Terapia, mindfulness e equilíbrio entre corpo e mente nos 60 +

Texto Luiza Morena

“Nunca é tarde demais para quem nunca enfrentou seus problemas”, a frase de Judith Repetur, assistente social clínica que atua em Nova York com pacientes idosos que buscam auxílio psicológico pela primeira vez, traz a tona a realidade: não há motivos para se almejar longevidade senão para vivê-la com plenitude. Mas diferentemente do que você possa pensar essa não é uma meta impossível.

Pelo contrário. De acordo com estudos realizados na Universidade Stanford o número de pacientes maduros aumentou consideravelmente nos consultórios de psicologia nos últimos cinco anos. Ter a cabeça aberta e praticar a atenção plena são apenas os primeiros exercícios para se encarar o envelhecimento com mais leveza.

A rotina agitada, os filhos, a casa, o hobby, as viagens, as reuniões, o tempo, os tempos… Afinal, há tempo? Às vezes parece que 24 horas não são o suficiente para concluir todos os afazeres até mesmo para quem já encerrou a primeira etapa de sua vida profissional, mas experimente parar por 10 minutos a correria do dia a dia e agendar o despertador do relógio com esse pequeno intervalo. Somente durante esse tempo feche os olhos, relaxe e busque conectar-se com você mesmo. Esses serão os 10 minutos mais longos do seu dia.

O exemplo citado é apenas uma das experiências com objetivo de fazer com que nós consigamos – com muito esforço, é verdade – relaxar a mente e buscar o nosso interior, coisa que hoje em dia já amenizaria uma série de problemas. Conhecida como mindfulness ou atenção plena a prática vai muito além do experimento sugerido, é uma forma de estar presente a si, aos outros e ao meio à sua volta em cada momento. E para quem vive aquela etapa da vida ‘sanduíche’, espremida entre a necessidade de cuidar dos filhos, dos pais, do trabalho ou da pós-aposentadoria, da casa e por aí vai, olhar para si mesmo e para o presente certamente fará toda a diferença.

É com esse ímpeto de olhar para dentro nessa fase da vida que a busca crescente por profissionais de saúde, como psicólogos, tem como objetivo solucionar questões mal resolvidas do passado, organizar o dia a dia e aprender a lidar com as novas possibilidades. Afinal, se por um lado a rotina faz questão de provar que não há tempo, quanto tempo mais para frente ainda há?

terapia terceira idade

Quanto mais cedo melhor

Embora o preconceito seja algo enraizado em qualquer sociedade, muito já se fez para romper com o estigma do divã como sinônimo de fraqueza moral e, nos mais velhos, inclusive, de demência. Com índices altíssimos (o Brasil tem o maior número de casos de depressão da América Latina, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS)), a consciência da depressão faz com que as pessoas estejam mais atentas e além de procurarem ajuda na religião ou na família busquem também alternativas clínicas.

O raciocínio é simples: com o aumento na expectativa de vida o resultado de uma velhice tranquila será mais positivo o quanto antes você buscar ajuda. Por que passar mais 15, 20 ou 25 anos infeliz se você pode identificar e solucionar um problema?

Entrevistada pelo New York Times, a aposentada de 69 anos Judita Grosz conta que após uma depressão debilitante que a deixou três meses incapaz de sair da cama foi a terapia comportamental cognitiva que a fez sentir-se melhor: “Aprendi a ajustar o meu pensamento e não fico tão ansiosa quanto antes”. Desde a sua melhora ela começou a fazer e vender joias. “Descobri nesta idade que sou artista, criativa, inovadora e inteligente. Simplesmente despertei para o fato de que tenho mente própria. Isso que é talento maduro.”, conta.

De acordo com o psiquiatra geriátrico Marc E. Agronin, que acompanhou a paciente, não há nenhum vislumbre mágico na sua melhora, assim como não é possível dizer que Judita solucionou todos os problemas com a terapia, mas certamente conquistou uma ou duas metas significativas capazes de lhe garantir qualidade de vida.

Entretanto, não é apenas a depressão que tem levado os pacientes maduros para os consultórios. A combinação de tensões nessa fase pode trazer à tona outras questões não resolvidas, assim como muitas pessoas procuram ajuda por problemas de saúde mental deixados de lado anteriormente (já ouviu falar sobre a Síndrome de Burnout? Leia mais aqui). Preocupações contemporâneas em relação a novos arranjos de vida, finanças, problemas crônicos de saúde, perda de entes queridos e a sua própria mortalidade também estão na lista das abordagens mais recorrentes.

 A atenção plena pode ajudar a identificar o problema

 Embora não estivesse clinicamente deprimido, o octogenário Marvin Tolkin sofria com fortes enxaquecas e “lutava com um monte de coisas na vida”, conta e enumera os fatos que o fizeram procurar ajuda aos 83 anos: o falecimento de um antigo parceiro comercial e a morte repentina da primeira esposa 18 anos antes. No caso do idoso, as questões não eram recentes, mas estavam ali aguardando serem resolvidas.

Não é incomum ouvirmos de amigos e de parentes que regulem a mesma faixa etária o quanto estão preocupados com os filhos, com os netos, com o relacionamento com seus conjugues e em certos casos até mesmo com os parentes mais velhos – aquele prenúncio do que está por vir. A verdade é que todo mundo precisa de ajuda, mas nem sempre essa ajuda necessita vir a partir de um diagnóstico de uma doença como a depressão.

É nesse momento, novamente, que a prática de mindfulness torna-se uma aliada. À medida que você procura esvaziar a mente de pensamentos ou emoções e passa a prestar atenção ao presente sem apegar-se ao passado ou projetar o futuro muita coisa pode ser descoberta.

Quem passou uma vida inteira distanciando-se ao máximo do divã precisa ter a mente aberta para enxergar que ainda há muita vida pela frente e o acompanhamento psicológico, de acordo com Robert C. Abrams, professor de psiquiatria clínica da Faculdade de Medicina Weill Cornell, ajuda a criar essa perspectiva. “As coisas podem ser vistas de forma diferente na terceira idade, aliviando culpas e desafiando suposições adotadas há décadas. ‘Talvez aquele problema não tenha sido tão grande assim afinal; quem sabe eu não devesse me culpar.’”, exemplifica o médico e finaliza “Talvez você reflita  que os seus piores erros não foram assim tão graves e, quiçá, tenham sido fruto de circunstâncias inevitáveis e incontroláveis”. O importante é identificá-los, resolvê-los e seguir em frente.

Fator propulsor, a avaliação dos médicos é que o resultado de acompanhamentos psicológicos nos pacientes com mais idade é muito mais satisfatório do que aquele realizado aos jovens.  A partir do momento em que há a vontade de conversar com um terapeuta a mudança é significativa. O motivo? “Esses pacientes costumam levar mais a sério as discussões, têm objetivos definidos e são menos tolerantes ao tempo perdido”, afirma Abrams.

Rear view of senior woman meditating in lotus position at park

 Saiba mais sobre Mindfulness

A expressão “mindfulness” deriva do termo em Pali Sati (Smṛti em Sânscrito), um elemento essencial do Budismo. A sua prática está cada vez mais presente no mundo ocidental, em concreto na Psiquiatria e na Psicologia, para aliviar uma variedade de condições físicas e mentais, incluindo transtorno obsessivo-compulsivo e ansiedade, além da prevenção a recaídas depressivas, bem como no tratamento de dependências.

Contrariamente à crença popular, a prática não procura esvaziar a mente de pensamentos ou emoções, trata-se de prestar atenção ao momento presente, sem ficar apegado ao passado ou sem se projetar no futuro. É provável que você já tenha vivenciado diversos momentos de atenção plena na sua vida e nem sequer tenha notado.

Na sua base, mindfulness é um treino baseado na conexão “mente-corpo”, podendo ajudar na observação dos padrões de pensamentos e de emoções e nas suas experiências – boas, neutras ou negativas – o que interfere significativamente nas reações. Traduzido para o português como ‘Consciência Plena’, ‘Presença Plena’ ou mais frequentemente como ‘Atenção Plena’, ele pode ser considerado um processo de auto-regulação da atenção com o objetivo de trazer uma qualidade da consciência não-elaborativa ao momento presente, dentro de uma orientação de curiosidade, abertura experiencial e aceitação (Bishop et al., 2004).

Fonte: https://well.blogs.nytimes.com/2013/04/22/how-therapy-can-help-in-the-golden-years/?_r=0

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Por | 2017-07-18T14:18:21+00:00 02/06/2017|0 Comentários

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